domingo, 13 de novembro de 2011

A força da santidade

Nosso Senhor Jesus Cristo não só afirmou em várias ocasiões sua divindade — “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30) —, como também a confirmou por meio de portentosos milagres.
Nenhum mal resistia a suas ordens, quer fosse a febre ou a paralisia, a surdez ou a mudez, a cegueira ou a lepra, e até mesmo a morte, pois Ele ressuscitou o filho da viúva de Naim, a filha de Jairo e Lázaro. Seu domínio se estendia sobre os seres minerais, vegetais e animais: a seu comando, a tempestade se amainou no Mar da Galiléia, a água se transformou em vinho, pães e peixes se multiplicaram. Mais ainda, os demônios se submeteram prontamente, como nos casos dos possessos de Gerasa e de Cafarnaum. E todas as suas profecias se cumpriram: a traição de Judas, as três negações de Pedro, a Paixão, a destruição de Jerusalém, as perseguições sofridas pelos Apóstolos. Por fim, seu poder se manifesta com todo o esplendor em sua própria Ressurreição.
Com esse domínio divino sobre toda a Criação, Jesus teria podido facilmente conceder uma irresistível graça de santificação aos homens, assim como livrá-los de tentações e más inclinações. Afinal, é ardente seu desejo de que todos se salvem, a ponto de ter entregado sua própria vida com essa finalidade.
Mas, então, por que Ele não agiu assim?
Em sua infinita sabedoria, Nosso Senhor deseja que as almas se abram para Ele por puro amor, deixando-se trabalhar por sua graça. Coloca os homens no estado de prova, a fim de adquirirem méritos, fazendo bom uso do livre arbítrio.
Não é fácil a batalha pela virtude. Deus conhece nossas debilidades muito melhor do que nós mesmos, Ele que “sonda os rins, e penetra até o fundo do coração” (Sb 1,6). Sabe quão árduo é o esforço para andar no caminho reto, e ampara quem é provado por permissão divina. Visando ajudar a humanidade a salvar-se, deu-lhe preciosos recursos como os Sacramentos, entre os quais se destacam a Eucaristia e a Reconciliação, a Liturgia, com suas diversas cerimônias, e o ensinamento infalível do Papa.
Suscitou também pessoas virtuosas, cujos exemplos enlevam e arrastam. Um Paulo de Tarso fez a Igreja nascente se multiplicar pela orla do Mediterrâneo; um Francisco de Assis e um Domingos de Gusmão conseguiram deter a crise espiritual que ameaçava o mundo cristão no século XIII; um Pedro Canísio resgatou para a Igreja vastas áreas perdidas por ela no mundo germânico. Pessoas não brilhantes de inteligência, como João Maria Vianney ou José de Cupertino, foram pontos de referência em seus dias. Teresa de Ávila cativou a Espanha, Hildegarda de Bingen e Catarina de Siena foram conselheiras até dos grandes deste mundo. Bernon, Odon, Maïeul, Odilon e Hugo — os cinco abades santos de Cluny — exerceram uma tal força de atração sobre as multidões e as elites, que sua Ordem moldou a Europa católica na Idade Média.
Tudo isso, sem usar nenhum meio violento, nenhuma coerção, sem riquezas nem manobras políticas, e sem truques publicitários. Mas pura e simplesmente pela suave e irresistível força da santidade.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Rei dos Reis

Viviam os hebreus sob a proteção do Senhor e eram por Ele orientados através de seus profetas. Era a única nação a gozar de um regime teocrático. Debaixo dessa forma de governo, haviam abandonado a escravidão egípcia, caminhado pelo deserto entre milagres durante quarenta anos e vieram, por fim, se estabelecer na terra onde corria o leite e o mel. Apesar de terem passado pelas agruras dos castigos, por não haverem cumprido suas promessas, as intervenções de Deus, libertando-os de sucessivos opressores, marcaram- lhes a história, consagrando-os como o povo eleito.
Entretanto, o seu glorioso passado não foi suficiente para fazê-los crer no poder de Deus, e menos ainda em seu amor, nem para evitar que eles desejassem ser como os demais povos: “Dá-nos um rei que nos governe, como o têm todas as outras nações” (I Sm 8, 5).
O mimetismo pode gerar bons frutos, quando movido por amor de Deus; mas, se tem suas raízes na comparação, inveja ou insegurança por falta de fé, como aconteceu com o povo hebreu, as consequências desastrosas são incalculáveis. A primeira delas é dar as costas ao próprio Deus: “Não é a ti que eles rejeitam, mas a Mim, pois já não querem que Eu reine sobre eles” (I Sm 8, 7). E apesar de ter ouvido dos lábios do profeta a ladainha das inferioridades do regime monárquico em relação ao teocrático, “o povo recusou ouvir a voz de Samuel. Não, disseram eles; é preciso que tenhamos um rei! Queremos ser como todas as outras nações!” (I Sm 8, 19-20).
É insondável a misericórdia divina. Correram os séculos e Deus atendeu prodigamente os anseios do povo eleito: deu não só a eles, mas a toda a humanidade, não um grande rei, mas o “Rei dos reis, Senhor dos senhores” (I Tm 6, 15). Concentrou num mesmo Homem a realeza, a “messianidade”, o profetismo e o sacerdócio, oferecendo-lhes um Reino eterno e infinitamente superior a qualquer outro deste mundo.
Nova rejeição! Porém, dentre os mortos Ele ressuscita e, sendo “as primícias dos que morrem” (I Cor 15, 20), oferece-nos a Ressurreição também a nós: “pois assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” (idem, 22).
Também insondável é a maldade humana. Eis a grande infidelidade de todas as nações de nossa era, a rejeição de Cristo Rei para agarrar-se aos prazeres perecíveis e fugazes, num mimetismo desgastado e sem sabor, de um mundo decrépito, falido e inautêntico. Quiçá nas solenidades da magna festa de Cristo Rei, Jesus Hóstia — tão realmente presente em Corpo, Sangue, Alma e Divindade quanto o estava em Israel — possa ouvir nosso brado: “Jesus, Filho de Davi, tende piedade de nós”. E assim, atendendo-nos, traga-nos a verdadeira paz da qual tanto hoje necessitamos.
Tanto mais que sendo “verdadeiramente ‘Rei do Universo’, Ele tudo governa e tudo renova para poder, no fim, ‘entregar’ o mundo ao Pai, ‘para que Deus seja tudo em todos (1 Cor 15, 28). (...) Aplicai-vos para que a sua realeza se manifeste no vosso esforço de viver as realidades do mundo, transfigurando- as com o amor e o louvor de Jesus.” (Discurso de SS. João Paulo II aos peregrinos, 25/11/2000).

sábado, 5 de novembro de 2011

Jesus fez infinitamente mais do que escrever

Jesus percorreu as cidades e aldeias pregando a Boa Nova, andou sobre as águas, transformou água em vinho, multiplicou pães e peixes, curou leprosos, restituiu a voz aos mudos, fez os surdos ouvirem, ressuscitou mortos... Entretanto, não escreveu sequer um bilhete, menos ainda um rolo de revelações.
Não Lhe custaria multiplicar as cópias das Escrituras já existentes. Poderia também mandar os Discípulos escreverem de imediato suas doutrinas em rolos de papiro e multiplicá-los — superando mesmo, se assim desejasse, a produção de todas as impressoras fabricadas desde Gutenberg até nossos dias — para serem distribuídos às multidões.
Entretanto, Ele nada escreveu, nem multiplicou qualquer pergaminho, mesmo dos que leu tantas vezes nas sinagogas. Também não deixou instrução alguma quanto à redação ou utilização de textos relativos à sua vida.
Que fez Ele? Infinitamente mais do que tudo isso: na Última Ceia, instituiu a Sagrada Eucaristia, pala qual permanece conosco com seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade.
E deixou-nos uma imagem viva de Si mesmo: a Igreja
Além disso, sabendo quanto os símbolos vivos são necessários ao homem para lhe dar o conhecimento de Deus, deixou-nos a Santa Igreja Católica, na qual sua fisionomia divina se reflete como num espelho. No ápice da Igreja, o Papa, o Doce Cristo na terra, a sucessão apostólica. Fez questão de nos dar também almas santas, como o Santo Cura d’Ars, do qual disse um advogado parisiense: “Vi Deus num homem”. Ao longo da História, afirma São Roberto Belarmino, sempre existiram e continuarão a existir almas confirmadas em graça, imagens de Deus, para manter visível a santidade da Igreja.
Por fim, como o homem precisa valer-se dos sentidos para ter uma idéia mais próxima de quem é Deus, colocou Ele à nossa disposição esse meio poderoso de melhor o conhecermos e servirmos, que se chama Arte, nas suas ricas e variadas manifestações: Escultura, Pintura, Música, Teatro, Arquitetura, etc.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Sacerdos alter Christus

Ficarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20). Que extraordinária promessa nos fez o Senhor, pouco antes de subir ao Céu! Falava Ele com os Apóstolos e, embora tais palavras fossem dirigidas a todo o gênero humano, continham uma mensagem especial para eles.
Com efeito, Cristo nosso Senhor se faria presente entre nós de vários modos, mas particularmente na voz infalível do Papa, na distribuição dos Sacramentos e, em especial, na sua real presença na Sagrada Eucaristia. Ora, todas essas maneiras de presença estão vinculadas ao sacerdócio e são dele dependentes. Era natural, pois, que Jesus, ao instituir a Santa Igreja, a entregasse à direção de homens que deviam ser seus representantes e sucessores: “Sacerdos alter Christus”.
Seja no confessionário, no altar ou no púlpito, o sacerdote é outro Cristo, e está continuando a própria missão do Homem-Deus nesta terra, quer dizer, a de ensinar a verdade, a de santificar e a de conduzir os homens no caminho da salvação.
Quão enorme é o poder de perdoar os pecados! Maior até do que o de curar os paralíticos, conforme afirmou o próprio Jesus (Mt 9, 2-7). Esse poder, Ele o conferiu aos Apóstolos para que o perpetuassem na sua Igreja, ao soprar sobre eles e dizer: “Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (Jo 20, 22-23).
E o que dizer do poder de celebrar a Eucaristia, consagrando o pão e o vinho? Sobre a grandeza da Celebração Eucarística, os Doutores, os Padres da Igreja e os Papas nos deixaram belas e profundas reflexões, como esta, de João Paulo II: “Diante desta extraordinária realidade ficamos atônitos e abismados: como é grande a humildade condescendente com que Deus Se quis ligar ao homem! Se nos detemos comovidos diante do Presépio contemplando a Encarnação do Verbo, como exprimir o que se sente diante do altar onde, através das pobres mãos do sacerdote, Cristo torna presente no tempo o seu Sacrifício? Só nos resta ajoelhar e em silêncio adorar este mistério supremo da fé” (Carta aos Sacerdotes, Quinta-Feira Santa de 2004).
Entende-se melhor por que São Francisco de Assis osculava o lugar por onde havia passado um sacerdote e jamais aceitou ser ordenado presbítero, julgando-se indigno (por causa de sua extrema humildade, é claro) de ser elevado a esse extraordinário estado.
Não é, portanto, sem fundamento que, nas relações humanas, haja uma exigência quanto à transparência dos variados aspectos da divina figura de Jesus nos seus sacerdotes, como afirmava São Paulo: “É preciso que os homens vejam em nós ministros de Cristo e dispensadores dos mistérios de Deus” (1 Cor 4, 1).
Sobretudo no mais recôndito de sua alma, o padre é um outro Cristo, por ter recebido uma especial consagração, participativa daquela verificada na natureza humana de Nosso Senhor por sua união hipostática com o Verbo. Um só é o sacerdócio: o de Jesus Cristo, participado e continuado ao longo da História por seus sacerdotes.

domingo, 23 de outubro de 2011

PARA AS ALMAS ÁVIDAS DE FÉ

Katechesis, termo grego, significa instrução pela palavra oral, especialmente pelo sistema de perguntas e respostas. O primeiro catequista da História foi o próprio Jesus, que com frequência usava esse método para instruir: “No dizer do povo, quem é o Filho do Homem? — E vós, quem dizeis que Eu sou?”
Se os escritos do Novo Testamento foram, de algum modo, catecismos, a primeira obra definidamente catequética foi escrita por São Cirilo, no ano 347, num estilo muito claro e lógico. Por volta do ano 400 ficou famoso um tratado redigido por Santo Agostinho, que acabou sendo adotado universalmente. Durante a Idade Média foram elaborados diversos catecismos muito populares, mas era impossível fazer chegar um exemplar a cada família, devido ao alto custo das reproduções.
Essa situação mudou de forma extraordinária com a invenção da imprensa, que levou à publicação de edições em todas as línguas da Europa.
No século XVI surgiu o primeiro catecismo internacionalmente famoso, do jesuíta holandês São Pedro Canísio, visando reparar o dano causado no meio do povo fiel pelos escritos protestantes. Tal foi seu sucesso que “canísio” virou sinónimo de “catecismo”. Pouco depois, o Concílio de Trento viu a necessidade de um manual popular que aplicasse “um remédio salutar” àquela situação. Por incitamento de São Carlos Borromeu foi então publicado o Catecismo Romano, um método “para ensinar os rudimentos da Fé, que sempre gozou de grande autoridade”.
Multiplicaram-se desde então os catecismos, nacionais, regionais ou diocesanos. Por ocasião do Concílio Vaticano I (1869-1870), urgiu-se a redação de um catecismo popular universal. Os países cristãos ocidentais passavam então por grandes transformações, como as enormes ondas de emigrantes que partiam da Europa em várias direções. Sendo único o catecismo, um católico sentir-se-ia em casa tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, na África do Sul ou na Austrália.
Circunstâncias históricas impediram que tal catecismo fosse preparado naquela ocasião. Mas não demorou para ser posto em prática o projeto, de modo bastante inesperado. O Papa São Pio X elaborou um catecismo simples e breve, na clássica forma de perguntas e respostas, expressando o desejo de que fosse adotado em toda a Itália. Contudo, notando sua utilidade, um amplo movimento de clérigos e leigos advogou sua adoção no mundo inteiro, e conseguiu seu intento.
Correram as décadas, e o nosso mundo globalizado passou a exigir um novo catecismo, capaz de afrontar os desafios do momento. Quando o Sínodo Extraordinário dos Bispos de 1985 sugeriu a publicação de um compêndio sobre Fé e Moral, que servisse de ponto de referência para todos os outros catecismos, o saudoso Papa João Paulo II abraçou a ideia e promoveu sua publicação, que veio a lume em 1992.
Faltava responder às necessidades da maioria dos fiéis, pouco habituados aos conceitos teológicos, e imersos na “civilização da imagem” — que não favorece abstrações doutrinárias. Era indispensável um compêndio do catecismo numa linguagem mais acessível. Foi o próprio João Paulo II quem o encomendou ao então Cardeal Ratzinger.
O Papa Bento XVI apresentou esse trabalho quando centenas de milhões de pessoas, católicas e não-católicas, sentem o agravamento da crise geral e voltam seus olhos esperançosos para a Barca de Pedro, à procura de algo firme em que se agarrar.
Ninguém ama o que não conhece. A Igreja colocou, assim, um esplêndido manual de educação religiosa ao alcance das almas ávidas de fé.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Perdão

Pode-se discutir sobre qual a posição normal do homem, se de pé ou sentado. E haverá um sem-número de opiniões discordantes a este respeito. Muito mais importante, e mais fácil, será chegar-se a um acordo quanto à necessidade de ajoelhar-se diante de Deus, como símbolo da nossa humildade ante o Criador. Em sua infinita e onipotente majestade, como também nas manifestações de sua inesgotável misericórdia, Jesus mais nos atende e nos perdoa ao encontrar-nos de joelhos no chão.
Esta atitude é justamente o que falta à nossa era histórica.
Grandes inventos e descobertas fabulosas, em meio a um progressivo afastamento de Deus, conferem à humanidade uma ilusão cada vez mais acentuada sobre sua própria grandeza. Erguida sobre um pedestal de barro, ela alça ao ar seu troféu de vanglória, sem se dar conta de quanto já vacilam seus pés sobre a inconsistência do solo onde pisam. Ó ciência, onde está tua vitória? Em seu nascedouro, o progresso moderno e as novas técnicas visavam o bem de todos. Hoje, porém, quantos deles passaram a ser instrumentos de destruição! Por mais que se esforcem os poderes legitimamente constituídos para refrear, corrigir e ordenar os desvios e — por que não dizer? — as loucuras dos tempos presentes, nada conseguirão.
Para isto, a única solução cabível, honesta e eficaz consiste em fazermos uso do genuflexório para pedir perdão a Deus pelo fato de O termos esquecido e implorar que nos receba de volta em seu amparo, ainda que seja na condição de servos.
Não estarão longe os dias de calamidade e miséria, se continuarmos na terrível trilha por nós escolhida. Mas será necessário chegarmos ao extremo de comer as bolotas dos porcos, para tomarmos a decisão de retornar à casa paterna? Não! A qualquer altura do caminho, bastará nos ajoelharmos e batermos no peito, implorando misericórdia.
Façamos penitência e, buscando um confessionário, declinemos com humildade todas as nossas faltas, à espera da absolvição sacramental, a fim de recuperarmos o estado de graça e restabelecer-se em nós a inteira amizade com Deus.
O grande Patriarca da Igreja muito pode nos ajudar nessa sobrenatural tarefa. São José possui uma especial audiência junto a Jesus e a Maria, sua intercessão é poderosa e ele muito se alegra ao ser invocado. Só um recurso ao Céu poderá desviar as catástrofes que se avolumam no horizonte de nosso amanhã. Para que elas não nos colham, é indispensável à humanidade... dobrar os joelhos.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Nunca por causa dos trabalhos deve-se deixar a oração para segundo plano. A força da ação está na oração.