terça-feira, 29 de março de 2011

A inveja, “cárie dos ossos”


 A inconsistência, ilogicidade e malícia da inveja
 No que consiste esse vício? Na tristeza por causa do bem alheio. Tanquerey, no seu Compêndio de Teologia Ascética e Mística, salienta que o despeito causado pela inveja é acompanhado de uma constrição do coração, que diminui a sua atividade e produz um sentimento de angústia. O invejoso sente o bem de outra pessoa “como se fosse um golpe vibrado à sua superioridade”. Não é difícil perceber como esse vício nasce da soberba, a qual, como explica o famoso teólogo Frei Royo Marín, O.P., “é o apetite desordenado da excelência própria”. A inveja “é um dos pecados mais vis e repugnantes que se possa cometer”, faz questão de sublinhar o dominicano.
São Tomás destaca, na Catena aurea,  na parábola dos vinhateiros ,o fato de os trabalhadores da vinha não se queixarem por considerar-se defraudados na recompensa à qual tinham direito, mas porque os outros haviam recebido mais do que mereciam. Vemos por aí a insensatez do invejoso, a ponto de sofrer mais com o sucesso dos outros do que com suas perdas.
Da inveja nascem diversos pecados, como o ódio, a intriga, a murmuração, a difamação, a calúnia e o prazer nas adversidades do próximo. Ela está na raiz de muitas divisões e crimes, até mesmo no seio das famílias (basta lembrar a história de José do Egito). Diz a Escritura: “Por inveja do diabo, entrou a morte no mundo” (Sb 2, 24). Aqui está a raiz de todos os males de nossa terra de exílio. O primeiro homicídio da História teve esse vício como causa: “... e o Senhor olhou com agrado para Abel e para sua oblação, mas não olhou para Caim, nem para os seus dons. Caim ficou extremamente irritado com isso, e o seu semblante tornou-se abatido” (Gn 4, 4-5).
Na parábola dos vinhateiros, a inveja é o motivo da murmuração dos operários da primeira hora contra o dono da vinha. Este mesmo afirmará: “Ou me olhas com inveja por eu ser bom?” Pecado de conseqüências funestas, tornou amargurados muitos anjos, logo no primeiro dia da criação, que por essa razão foram precipitados do alto dos céus ao mais profundo dos infernos. Não suportaram a infinita superioridade de Deus e, quiçá, a divindade de Jesus e a predestinação de sua Mãe à maternidade divina.
Os Evangelhos transbordam ao narrarem a perfídia dos escribas e fariseus contra o Messias. Qual a causa desse ódio deicida? “Porque sabia que O tinham entregado por inveja” (Mt 27, 18).
Com propriedade afirma o livro dos Provérbios (14, 30): “Um coração tranqüilo é a vida do corpo, enquanto a inveja é a cárie dos ossos”.
Esse vício comporta graus. Quando tem por objeto bens terrenos (beleza, força, poder, riqueza, etc.), terá gravidade maior ou menor, dependendo das circunstâncias. Mas se disser respeito a dons e graças concedidas por Deus a um irmão, constituirá um dos mais graves pecados contra o Espírito Santo: a inveja da graça fraterna.
“A inveja do proveito espiritual do próximo é um dos pecados mais satânicos que se pode cometer, porque com ele não só se tem inveja e tristeza do bem do irmão, mas também da graça de Deus, que cresce no mundo”, comenta Frei Royo Marín.
Todas essas considerações devem gravar-se a fundo em nossos corações, fazendo-nos fugir desse vício como de uma peste mortal. Alegremo-nos com o bem de nossos irmãos, e louvemos a Deus por sua liberalidade e bondade. Quem agir assim notará, em pouco tempo, como o coração estará sossegado, a vida em paz, e a mente livre para navegar por horizontes mais elevados e belos. Mais ainda: tornar-se-á ele mesmo alvo do carinho e da predileção de nosso Pai Celeste.
 De passagem, parece-nos oportuno notar que essa regra se aplica não somente a cada católico, mas também às numerosas famílias espirituais existentes na Igreja. Entre elas deve reinar sempre e de modo crescente a atmosfera expressa pelo Apóstolo nestas palavras: “A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Cor 13, 4-7).
 Onde impera o amor a Deus, desaparece a inveja.


A recompensa demasiadamente grande
Aqui nesta terra estamos só de passagem. Nosso destino é a visão beatífica na eternidade: “In lumine tuo videbimus lumen” (Sl 35, 10) — “Na vossa luz veremos a luz”. Nossa inteligência participará do “lumen gloriae” (luz da glória) de Deus e será através desta que O veremos, face a face. Ele será o mesmo para todos e os cumulará de indizível felicidade, pois, como disse Deus: “Tua recompensa será demasiadamente grande” (Gn 15, 1). Porém, a condição essencial para todos lá chegarmos está fixada na verdadeira caridade, e jamais na inveja.

sexta-feira, 25 de março de 2011

É possível amar sem conhecer? E conhecer sem amar?

O que é superior, conhecer ou amar?
Parece que conhecer é superior, pois precede o amor. Com efeito, não é possível amar aquilo que não se conhece. Logo, a operação do intelecto, ou do conhecimento, é superior à operação da vontade, que diz respeito ao amor.

Se isso é inteiramente assim, então deveríamos dizer que é melhor conhecer a Deus do que amá-Lo. Alguém, conhecendo profundamente a Deus — em seus efeitos, evidentemente, não em sua essência —, poderia salvar-se quase sem amá-Lo... Entretanto, está escrito: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças”, e esse é o primeiro mandamento do Decálogo.
A questão, portanto, não é tão simples, e foi objeto de debates entre teólogos e filósofos escolásticos durante séculos.
São Tomás de Aquino a resolve de modo genial, podendo seu ensinamento ser resumido nesta frase: “A dileção supera o conhecimento em mover, mas o conhecimento precede o amor em atingir”. Fazemos vir até nossa inteligência o objeto de nosso conhecimento, quer dizer, apreendemos e nos apossamos intelectualmente daquele ser. Entretanto, quando amamos algo, nossa vontade voa até o amado, e nós é que somos apossados.
A importância maior do conhecimento ou do amor vai depender, então, daquilo que conhecemos ou amamos. Se tivermos diante de nós algo que nos é inferior, mais vale conhecer que amar. Pode ser nosso carro, por exemplo, ou o computador de casa. Ao conhecê-los, trazemo-los à nossa inteligência, adequando-os a nós mesmos. Eles, meros objetos materiais, ficam enobrecidos por sua apreensão pela inteligência humana.
Será normal que tomemos certo cuidado com esse carro ou computador, porque nos são úteis e têm seu preço. Mas se, por um movimento desregrado, nos apegamos a eles, ficamos-lhes proporcionados e, portanto, diminuídos em nossa dignidade de seres humanos.
Mas se aquilo que se oferece à nossa consideração é, por exemplo, Nosso Senhor Jesus Cristo, ou Nossa Senhora, ou a Cátedra de São Pedro, ao amálos, nossa alma voa até eles, e crescemos espiritualmente, sendo de algum modo assumidos.
Tão grande é a potência do amor que São Tomás chega a dizer que se um menino não-batizado e educado entre pagãos, ao chegar ao pleno uso da razão, amar eficazmente o que é superior a ele, mais do que a si próprio, ficará justificado.
O famoso dominicano tomista do século passado, Frei Réginald Garrigou Lagrange, comenta que só mesmo um São Tomás para se atrever a fazer uma afirmação tão ousada como essa. Entretanto, uma vez formulada, não é difícil perceber seu acerto.
Portanto, há seres e valores que são superiores a nós, aos quais devemos amar mais do que a nós mesmos. Esse amor será, sempre, em função de Deus, criador do universo e da ordem que há nele.
Eis, pois, o resultado de nossa inquirição: mais importante é amar que conhecer quando os entes nos são superiores; mais importante é conhecer que amar quando eles nos são inferiores.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O centro deve estar sempre ocupado por Deus

Precedendo as solenidades mais importantes - o Nascimento do salvador e sua Paixão, Morte e Ressurreição - a Igreja destina dois períodos de preparação: o Advento e a Quaresma, pois convém que , para celebrar tão elevados e sublimes mistérios, os fiéis purifiquem suas almas das misérias e apegos, tornando-as mais aptas a receber as dádivas celestes. Monsenhor João comenta um trecho do Evangelho de São Mateus :

Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis recompensa junto de vosso Pai que está no céu.
Difícil era os fariseus serem alheios à hipocrisia. Levados por um supino orgulho, voltavam-se para si mesmos a ponto de se esquecer de Deus, fazendo suas boas obras com o intuito de angariar prestígio "diante dos homens".
O defeito apontado por Nosso Senhor era comum entre eles, e infelizmente não é raro também em nossos dias. Transbordam das sagradas escrituras conselhos sobre esse pecado capital, raiz de muitos vícios, principalmente no livro do Eclesiastes: "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade(Ecl1,2). É essa a preocupação do Divino Mestre.
A respeito dos atos humanos podemos afirmar que alguns são neutros, com por exemplo cantar ou pintar. a substância e o mérito lhes advém da intenção e da finalidade com as quais os executamos. Outros são bons de per se, por estarem ordenados pela razão a um objetivo honesto. Mas, segundo o Doutor Angélico, "pode acontecer que um ato em si mesmo virtuoso se torne, eventualmente, vicioso, devido a certas circunstâncias".
Ora, a vaidade macula muitas vezes nossos atos de virtude e nos rouba os méritos. Pois, como sublinha o Cardeal Gomá, ela é " perniciosíssimo inimigo das boas obras: praticá-las com o escopo de ser visto e admirado pelos outros, é perder a recompensa que lhes corresponde quando são feitas com reta intenção".
Afirmam os mestres da vida espiritual ser a vaidade um vício tão arraigado no homem que, por assim dizer, somente o abandona meia hora depois de sua morte. Para vencê-lo, requer-se muita oração, paciência e esforço. Oração, porque por meio dela se obtêm as graças para combatê-lo. Paciência e esforço, porque devemos lutar contra ele dia e noite, impedindo-o de instalar-se em noss alma, como recomenda São João Crisóstomo: "É necessário prestar muita atenção em sua entrada, do mesmo modo como alguém põe-se em guarda contra uma fera prestes a atacar quem não está vigilante".
Poderíamos, então, usar uma expressão forte, mas muito verdadeira: a vaidade é o principal sorvedouro por onde escoam os méritos das nossas orações e boas obras. Ela é também um veneno para a alma, porque deixa desprovida de forças para enfrentar as tentaçõese, portanto, exposta a toda espécie de fraquezas e capitulações.
Convém notar, de outro lado, que ao dizer-nos: “Guardai-vos de fazer as boas obras diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles”, não nos convida o Mestre a sempre nos ocultarmos para fazer o bem, pois praticar a justiça diante dos homens pode ser motivo de edificação para o próximo e de glória para o Criador, com sublinha o grande Bossuet: “Ele não nos proíbe de praticar a justiça cristã em todas as oportunidades, para edificação do próximo; pelo contrário, disse Ele: ‘Brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos Céus.[…] Edificai o próximo, por vossas ações externas, e tudo em vós, até mesmo um piscar de olhos, seja ordenado, mas tudo se faça com naturalidade e simplicidade, visando dar glória a Deus”.
Dar esmola visando o aplauso
Quando, pois, dás esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa.
Não tendo recebido ainda a seiva regeneradora do Cristianismo, na humanidade daquela época imperava de tal modo o egoísmo, que o dar esmola era prática incomum. Quem o fazia, julgava-se merecedor do aplauso dos demais, por sua pretensa bondade. Daí ser costume dar esmola “com muita ostentação”.
Mais ainda: “Parece que, para exercitar a generosidade, estabeleceu-se o hábito de proclamar o nome dos doadores […] e chegava-se mesmo a honrá-los, oferecendo-lhes os primeiros lugares na sinagoga”.
Ora, ensina Nosso Senhor, nesta passagem do Evangelho, que quem dá esmola para obter a aprovação dos outros pode considerar-se bem pago pelos elogios assim obtidos. Não lhe cabe esperar um prêmio sobrenatural, pois, conforme acentua o padre Tuya, “Deus recompensa em justiça sobrenatural somente aquilo que se faz sobrenaturalmente por amor a Ele, assim como repugna-Lhe esse censurável procedimento que é a hipocrisia farisaica”.
Quem, entretanto, dá esmola discretamente, apenas diante de Deus e por amor a Deus, este sim, d´Ele receberá a recompensa.


O prêmio, devemos esperá-lo apenas de Deus
Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita.Assim, a tua esmola se fará em segredo; e teu Pai, que vê o escondido, recompensar-te-á.



No versículo anterior, Nosso senhor recrimina aqueles que visam a vanglória na prática da esmola; neste, censura-nos o comprazimento vaidoso ao realizarmos as boas obras. Para combater esse defeito, precisamos esforça-nos para não deter nossa atenção naquilo que fazemos de bom. “Se fosse possível – comenta Bossuet -, seria necessário esconder de vós mesmos o bem que fazeis; procurai ocultar a vossos olhos pelo menos o seu mérito; […] empenhai-vos na prática da boa obra a ponto de jamais vos preocupar com o que dela vos resultará: deixai tudo por conta de Deus, assim só Ele vos verá, vos ocultareis de vós mesmos”.
Na mesma linha opina o Cardeal Gomá: “ Se possível fosse, até nós deveríamos ignorar nossas esmolas. A recompensa, devemos esperá-la somente de Deus”.
Completando essas afirmações, esclarece Maldonado: “Não há culpa em ser visto pelos outros quando se faz o bem, mas sim em desejar ser visto. Também não há culpa em querer ser visto, desde que não seja para conseguir o elogio dos homens. ‘Brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus’”.

É vã a oração de quem visa as exterioridades

Quando orardes, não façais como os hipócritas, que gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa.

Naquela época, era dever de todo varão judeu rezar três vezes por dia: de manhã, coincidindo com o sacrifício matutino, ao meio-dia e na hora do sacrifício vespertino. As preces eram feitas geralmente de pé, com os braços erguidos para o Céu como a simbolizar o dom que se esperava receber.

As pessoas costumavam orar no interior das próprias casas. Os fariseus, porém, escolhiam para tal os lugares mais visíveis nas sinagogas ou nas praças públicas. Ali gesticulavam e repetiam de cor grande número de orações, de forma a impressionar quem por lá passava. Inútil dizer que eram vãs essas preces, pois eles já tinham obtido o que almejavam: o aplauso dos transeuntes.
Não caiamos, entretanto no erro de pensar que Nosso Senhor condena toda oração feita em público. O Divino Mestre recrimina neste versículo apenas a preocupação com as exterioridades, tão frequente nos homens daquele tempo, e a atitude genérica das pessoas que rezam com ostentação ou procurando unicamente o louvor dos semelhantes.

Na nossa vida de piedade, devemos procurar ser discretos
Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á.
A essência da oração, ensina o Catecismo, é a “elevação da mente a Deus”. Assim, é possível a qualquer um permanecer em oração inclusive durante os atos comuns da vida, realizando-os com o espírito voltado para o Céu.
Portanto, para rezar não é preciso tomar atitude espalhafatosa dos fariseus. Devemos, pelo contrário, ser discretos nas manifestações externas de nossa piedade particular, evitando gestos ou palavras que ponham em realce nossa própria pessoa.
Mas se, apesar disso, nossa devoção for notada pelos outros, não devemos nos perturbar, tranquilizemo-nos com este ensinamento de Santo Agostinho: “Não há pecado em ser visto pelos homens, mas sim em proceder com a finalidade de ser visto”.


segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A sublimidade do Sacerdócio

Numerosos Santos e Doutores da Igreja discorrem sobre os excelsos poderes inerentes à dignidade sacerdotal. Um deles , São João Crisóstomo afirma:



"Eu fiz o céu e a terra - disse Deus - Eu te dou ó sacerdote , o poder de transformar a terra em um céu resplandecente. Eu firmei os astros na abóboda celeste , acende tu no firmamento da Igreja os astros mais brilhantes da santidade! Tu não podes criar o homem, mas podes convertê-lo a Mim. Com quanta ternura te amei, ó sacerdote, concedendo-te o poder de eclipsar com teus milagres a obra da minha criação !"


São Bernardo , tratando sobre o poder sacerdotal de administrar os Sacramentos, que ele se desdobra em três ramos , cada um deles adequado a uma das três Pessoas da Santíssima Trindade: pelo poder criador , o sacerdote é cooperador de Deus Pai ; o poder redentor o faz continuador de Deus Filho ; e o poder santificador o torna instrumento do Espírito Santo.


Poder Criador


Quando Deus disse : "Faça-se a luz (...) faça-se o firmamento ", assim foi feito. E quando o sacerdote diz : "Isto é o meu corpo (...) isto é o meu sangue" , opera-se uma operação mais maravilhosa : a Eucaristia! É o próprio Jesus Cristo , Deus e Homem , vivo sob as aparências de pão e de vinho. O criador aqui é o sacerdote!

Ele é em certo sentido , o criador do seu Criador. Isto tem todas as aparências de um paradoxo e, no entanto , é assim. Pelas palavras da Consagração , o sacerdote dá a Nosso Senhor uma vida sacramental que O torna realmente presente , com seu Corpo , seu Sangue , sua Alma e sua Divindade.



Poder redentor


Na pessoa dos Apóstolos , nosso Redentor dirigiu estas palavras a todos os sacerdotes , seus continuadores :"Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados , ser-lhes-ão perdoados ; àqueles que os retiverdes , ser-lhes-ão retidos" (Jo 20, 22-23).


Grandiosa foi a ação do Salvador ao ressuscitar Lázaro. Mais grandiosa , porém, é a obra do sacerdote no confessionário. A alma , vítima do pecado , está morta para a vida de Deus. Ante este cadáver espiritual , a voz do Confessor , que é a voz do próprio Cristo , se faz ouvir : " Eu te absolvo dos teus pecados". E o morto ressuscita para a vida da graça! Este é um milagre maior do que ressuscitar um morto , afirma Santo Agostinho.


Deus confiou aos sacerdotes uma capacidade da Ele próprio não faz uso imediato: a de absolver o pecador que tem apenas uma contrição imperfeita.


Ante este poder maravilhoso , exclama ainda Santo Agostinho: "Admiro a criação do céu e da terra ; porém , admiro ainda mais a obra do sacerdote , que transforma um pecador em um justo".


Poder santificador

Assim como a maternidade divina de Maria , que nos deu o Redentor , foi obra do Espírito Santo , de igual maneira , pelo mesmo Espírito a Igreja engendra perpétuamente a família dos resgastados: " A caridade de Deus é difundida em nossos corações pelo Espírito Santo"(Rom 5,5).


No caminho da virtude , os Santos foram ajudados pela graça. No entanto , o Autor da graça. quis servir-se do sacerdote como colaborador. Diz São Próspero que se os bem-aventurados entraram no Céu foi porque o sacerdote abriu-lhes as portas.


"Um Deus que se digna obedecer-me!"


Para produzir os efeitos divinos de seu ministério, o padre não pode prescindir do poder de Jesus Cristo. Porém , não O espera para atuar , mas , em contínuo contato com Ele , O põe em atitude quando quer. É o sacerdote quem toma a iniciativa para as grandes coisas que se produzem pelo seu ministério. A este propósito, exclama Santo Afonso de Ligório: “Um Deus se digna obedecer-me!”



No dizer do teólogo Tanquerey, o sacerdote “sobe da terra ao Céu para levar até Deus as homenagens de toda a humanidade, e desce do Céu à terra, com as mãos cheias de bênçãos para distribuir aos homens”.


Ao lado do fiel, em todos os momentos

Em benefício de quem foram dados ao sacerdote tão sublimes poderes?


Responde o Santo Cura d’Ars, modelo dos Párocos, explicando que o padre “não é sacerdote para si, mas para vós”, isto é, para todos os fiéis. Assim, em todo momento importante da vida do católico, a seu lado está ele para lhe conferir ou aumentar a graça.


Apenas nasce o homem, o sacerdote o purifica e regenera na fonte batismal, dando-lhe a vida sobrenatural que o torna filho de Deus e da Igreja.


Ele sustenta cada fiel ao longo de sua peregrinação nesta terra, ministrando-lhe o alimento dos Sacramentos e da Palavra de Deus. Ele é quem aconselha nas situações de dúvida, quem abençoa as pessoas, os lares, os objetos de piedade, os veículos, enfim, invoca a proteção de Deus para todas as atividades humanas.


Se o homem tem a desgraça de perder a vida da graça, pelo pecado, é o sacerdote que o ressuscita na Confissão. E se, pelo matrimônio, é chamado a cooperar com o Criador na transmissão do dom da vida humana, ainda então lá está o padre para abençoar suas núpcias.


Nas doenças graves ou na velhice, quem proporciona à alma o reconforto da Unção dos Enfermos é ele.



Quando, enfim, no dia de sair desta vida mortal, necessita o homem de força e auxílio para, sem medo, se apresentar à presença do Divino Juiz, quem o prepara e ampara é o ministro de Jesus Cristo.


Após a morte, o sacerdote conduz-lhe o corpo à sepultura, na esperança de que ressuscitará na glória. Mais ainda, quando sua alma está no Purgatório, ele vai em seu socorro, oferecendo
a Deus o sufrágio das orações oficiais da Igreja, sobretudo a Celebração Eucarística.


Assim, pois, do berço até a glória eterna, o sacerdote está continuamente ao lado do fiel, como guia no seu caminho, ministro de conforto e salvação, dispensador dos dons celestiais.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Novo Ano


Os Anjos tecem hipóteses e fazem considerações sobre o futuro;os homens, em geral, também anseiam por saber como será o dia de amanhã. Para Deus, entretanto, não existem incógnitas. Nada acontece sem que Ele já soubesse desde toda a eternidade. Toda a História encontra-se diante d’Ele como perpétuo presente.



Por que Deus não nos revela em minúcias esse conhecimento exato do porvir?


Entre outras razões, para nos manter em estado de vigilância: “Quanto àquele dia ou hora, ninguém o sabe, nem os Anjos do Céu, nem o Filho, somente o Pai. Estai alerta! Vigiai, porque não sabeis quando será o momento” (Mc 13, 32-33). Se o homem tivesse ciência do dia e hora da própria morte, por exemplo, correria grave risco de relaxar seu comportamento ao longo da existência, deixando para o último instante uma grande conversão... esperança muitas vezes ilusória, pois geralmente se cumpre o velho aforismo: Qualis vita, finis ita — como foi a vida, assim será a morte.


Ademais, o fato de o homem conhecer o futuro poderia ser considerado uma realização da mentira da serpente a Eva no Paraíso: “Sereis como deuses” (Gn 3, 5). Tal prerrogativa faria crescer irresistivelmente a inclinação da humanidade para estabelecer um governo independente do Criador.





Ora, na abertura de todo novo ano salta de dentro de nossos corações a incógnita de como se dará o desenrolar dos acontecimentos ao longo dos próximos 365 dias. Poderá alguém estar certo de não morrer nesse período? Qual a previsão para minha família, meus negócios, minha saúde, ou mesmo minhas relações sociais? Haverá alguma nação ou povo que possa estar tranqüilo quanto à sua estabilidade? Ainda mais nesta era pervadida de ameaças e ações do terrorismo internacional — com bombas nucleares espalhadas por todo o orbe, e na qual Deus e a moral vão sendo cada vez mais ofendidos e desafiados —, com base em quais fatores pode-se prever seguramente o rumo do acontecer humano?





Porém, para o homem de Fé, há um farol que não se apaga: A Igreja é imortal. “As portas do inferno não prevalecerão contra Ela” (Mt 16, 18). Alicerçada nessa promessa do Divino Salvador, sejam quais forem os acontecimentos, Ela, não só jamais morrerá, mas produzirá novos e belos frutos até o fim do mundo.



Tendo em vista essa categórica promessa do Redentor, temos plena convicção de que a Igreja é inabalável, a Igreja é imortal.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Condenado à morte que a Ela recorre, salva-se miraculosamente.

Ardorosíssimo devoto de Nossa Senhora do Bom Conselho, certa vez Mons. João Clá Dias comentou um grande milagre obtido através desta tão bondosíssima Mãe, desejoso de incutir, espandir e fortalecer a confiança neste milagroso afresco.

Um milagre tocante, narrado por De Orgio, e extraído dos primeiros anais do Santuário, foi a libertação de um condenado à morte chamado Giovani di Andrea, de Sarzano, na véspera da execução:

" Ele se encontrava na prisão pública de Siena, condenado à morte com seus outros dois companheiros celerados e facínoras. Por mais que um zeloso frade da
Ordem de São Francisco se aplicasse, redobrasse esforços e se cansasse para dipô-lo a bem morrer, não houve modo de levá-lo a dar o passo tão premente. Dizia sempre: " Ó Padre, dá-me um remédio para evitar esse golpe de morte".

Depois que lhe demonstrou a impossibilidade de livrar-se daquela prisão e da morte funesta à qual deveria submeter-se na manhã seguinte, por fim, enfadado, e talvez inspirado por Deus, disse-lhe o bom padre:" Se a milagrosa Madonna recentemente aparecida em Genazzano não te livra da morte, tu estarás amanhã indubitavelmente na eternidade". E assim desgostoso partiu.

Saindo o bom padre, Giovanni se lança com o rosto por terra, e começa a chorar sem cessar e a exclamar: " Ó Virgem Santíssima, se me fizerdes tão grande graça, imediatamente irei a vossos pés agradecer-Vos tão grande milagre". Dito isso viu de repente romperem-se os grilhões de seus pés. Vê, cheio de espanto e desejo de fugir, uma janelinha daquela prisão, à qual não poderia subir: aproxima-se dela e tenta a façanha. E facilmente, como se existisse uma escada invisível sobe.

Uma vez no alto fica assustado, por ver em baixo um precipício profundíssimo, de tal modo que era impossível lancar-se por ali sem se fazer em pedaços. Os companheiros gritam: " Louco! Desce, desce, e prepara-te para a morte pois do contrário tu te arruinarás". Tomando ânimo e cheio de vivíssima Fé por ter visto despedaçarem-se os grilhões milagrosamente e por ter subido até àquela janela sem saber como, faz o sinal da Cruz, volta a recomendar-se com fervor a Maria Santíssima de Genazzano e se atira sem nenhuma demora, dizendo repetidamente ao lançar-se e cair : " Ó Santa Maria de Genazzano ajudai-me".

Que prodígio digno da Imperatriz dos Céus! Como se uma nuvenzinha celeste o tivesse levado até embaixo, chega ao solo intacto, ileso, sem nenhum dano:" Invenit se illesum et intactum, tanquam si no cecidisset"-Encontrou-se ileso e intacto, como se não tivesse caído, assim se lê no depoimento feito logo depois.

Considerando assim o grande milagre, ao lado de tantos outros, bem resolveu a justiça humana deixá-lo em liberdade, visto que a Misericódia de Deus o desejava livre para a maior glória de Maria e de sua portentosa Imagem aparecida em Genazzano, dois meses antes.

Na manhã seguinte, tendo sido decapitados os outros dois, alegre e contente tomou o caminho de Genazzano e aqui chegou, aos 11 de julho de 1467, para agradecer à sua divina Libertadora e narrar, depondo com juramento sobre os Sacrossantos Evangelhos, em presença de sacerdotes e de Benedetto Marroco Altobello, de Genazzano, e Melchiorre di Rancilluni e de outros, o grande e portentoso acontecimento sucedido em Siena com sua pessoa."

quinta-feira, 23 de abril de 2009

O gótico e o Céu Empíreo








Impossível é, nesta terra de exílio, imaginar as maravilhas do Céu Empíreo, reservadas por Deus como prêmio para os homens. Pois como afirma São Paulo: " Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam"( I Cor 2,9).


Contudo, alguns santos tiveram o privilégio de , sobrenaturalmente, entrever o lugar de felicidade onde se gozam todas as alegrias, tanto espirituais como materiais.


São João Evangelista, arrebatado por uma visão profética, descreve no Apocalipse essa Jerusalém Celeste, com os seus fundamentos de safira e esmeralda, os seus muros e pavimentos de jade e topázio, as suas colunas de cristal encastradas em puro ouro(cf.Ap, 21).


São João Bosco, que visitara o Céu Empíreo em um dos seus místicos "sonhos", assim o apresenta a seus jovens alunos: " As colunas daquelas casas pareciam de ouro, de cristal e de diamante, de forma que produziam uma agradável impressão, saciavam a vista e infundiam um gozo extraordinário. Era um espetáculo encantador."


Chama a atenção o fato de ser representativo nessas visões o Paraíso Celeste como uma bela cidade constituída por esplendorosas construções. Não se trata, entretanto, de uma mera metáfora.

O homem, na eternidade, não precisa de prédios para se abrigar das intempéries, mas continuam-lhe sendo necessárias habitações adequadas, nas quais o corpo e a alma se sintam bem acolhidos e encontrem as condições apropriadas para o convívio com seus semelhantes. Para atender a esse anseio, Deus provê para os bem-aventurados uma mansão celestial inimaginável e magnífica, em harmonia com a visão beatífica de que gozam suas almas.



Ora, quando no Pai Nosso rezamos " venha a nós o Vosso Reino", pedimos que tudo neste mundo- da natureza à arte, do pensamento à técnica, da oração às formas de governo - se aproxime quanto possível do padrão de sublimidade que existe no Céu. No campo da arquitetura, isto significa pedir que essas celestiais moradas- realizadas, sem dúvida, em estilo sui generis e inédito - possam vir a ser de alguma forma refletidas nos edifícios da Terra.



Resplandecente de luz e ornada de pedras preciosas, a Jerusalém Eterna foi o ideal esplêndido para o qual tenderam os arquitetos do medievo, em seu afã de edificar neste vale de lágrimas algo análogo.





Por isso, o gótico, com as suas ogivas e agulhas que apontam para o alto, e , sobretudo, com os seus multicoloridos vitrais e o variado jogo de luzes e sombras, proporciona aos homens um mítico e sobrenatural ambiente, ponto de referência para, através da Fé, contemplar as belezas que lhes aguardam na visão beatífica.


Em sua Carta aos Artistas, o servo de Deus João Paulo II observa que " a força e a simplicidade do românico" desenvolveu-se gradualmente "nas ogivas e esplendores do Gótico". E logo a seguir afirma: " Onde o pensamento teológico realizava a Summa de São Tomás, a arte das igrejas submetia a matéria à adoração do mistério".


Se, aos Anjos, Deus incumbisse de levantar grandiosos templos na Terra, escolheriam eles um estilo diferente?