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domingo, 8 de janeiro de 2017

Virtude da fé

Explica-nos a doutrina católica que se Nosso Senhor Jesus Cristo viesse ao mundo revestido de esplendor e de glória, já ao nascer ficaria patente sua divindade e, dessa forma, nossa fé perderia o mérito, porque não se trataria de crer, mas sim de constatar uma realidade perante a imposição de fatos impossíveis de objetar. A adesão a Jesus Cristo não proviria da fé, mas da mera inteligência. Que mérito há, por exemplo, em acreditar na existência do Sol se o vemos todos os dias e experimentamos fisicamente seus efeitos?
Mons João Clá Dias - Comentários ao Evangelho Festa do Batismo do Senhor  

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Heróica fé diante de um frágil menino


Veneremos também, nessa noite de Natal, a heroica e robusta fé daqueles homens tão simples [os pastores]. A equivocada crença daqueles tempos era de que o Salvador prometido deveria ser um homem cheio de poder para livrar seu povo de todo e qualquer inimigo, a fim de conceder-lhe a supremacia sobre todos os outros povos. Portanto, um libertador rutilante de esplendor, de glória e de majestade maiores ainda que as do próprio Salomão. Ora, em vez de se depararem com um temível e grandioso imperador, acham-se diante de um frágil Menino, envolto em panos. Junto a Ele, um boi e um burro para aquecê-Lo, um pobre artesão, uma mulher cheia de simplicidade. Enfim, tudo o que o mundo de então - e de todos os tempos - julgava mais vil e desprezível. Apesar disso, em nenhum momento foram penetrados pela menor dúvida ou mesmo insegurança. Acreditaram de toda alma ser aquele Menino o esperado Salvador. Será essa também a minha fé na Igreja de Deus, tão infalível quanto os Anjos?
Mons João Clá Dias - Extraído dos comentários ao Evangelho da Missa da Aurora do Natal do Senhor.


sábado, 17 de dezembro de 2016

Preparação para o nascimento de Jesus


Na perspectiva da comemoração da chegada do Menino Jesus na noite de Natal, as graças já começam a se fazer sentir, enchendo de alegria os nossos corações. Estas graças, distribuídas no mundo inteiro em torno do altar, quando Ele vem até nós todos os dias na Eucaristia, tornam-se mais intensas nesta grande Solenidade na qual celebramos, litúrgica e misticamente, o Verbo que se fez carne entre nós, jubiloso acontecimento que nos é anunciado pelo cântico dos Anjos.
Devemos, portanto, arder do desejo de que o Divino Infante venha não apenas ao Presépio da Gruta de Belém, mas ao nosso interior para aí estabelecer sua morada, e que Ele também possa nascer, o quanto antes e de maneira eficaz, no fundo da alma de cada um dos habitantes da Terra, realizando o que Ele próprio nos ensinou a pedir na oração perfeita, repetida pela Igreja ao longo de dois mil anos: “venha a nós o vosso Reino; seja feita a vossa vontade, assim na Terra como no Céu” (Mt 6, 10).

Mons João Clá Dias – Extraído dos comentários ao Evangelho da missa de vigília do Natal do Senhor.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Cristo, Centro da História




A luz que emanou da Gruta de Belém, na noite de Natal, não ficou circunscrita àquele exíguo espaço. Ela se projetou na História, pelos séculos afora, e crescerá em esplendor até o fim dos tempos, quando Cristo se manifestará em toda a sua glória. 

Mas a luz produz sombras que ressaltam a beleza de seu brilho. Também o Natal tem sombras... A atitude de Herodes é uma delas. Ao ouvir a pergunta dos reis Magos — “Onde está o rei dos judeus?” —, ele se perturbou e toda a Jerusalém com ele, diz o Evangelho. “E reunindo todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo, perguntou-lhes onde devia nascer o Messias” (Mt 2, 4). 

Quando Jesus Menino deu os primeiros vagidos, suavemente embalado nos braços virginais de Maria, já os acontecimentos se desenrolavam em função d’Ele. O eixo da História se deslocava dos palácios dos grandes desta terra para aquela humilde Gruta. 

Os Céus se abriram e desceram legiões de anjos, cantando para festejar o nascimento do Messias. Do Oriente vieram poderosos reis com seus grandes séquitos para O adorar. Simeão e Ana se alegraram ao ver Jesus Menino e profetizaram a seu respeito. Herodes procurou matá-Lo... Diante de Jesus, ninguém ficou indiferente. Mudou o eixo da História, e esta passou a girar em torno daquele Menino, nascido da Virgem Maria. Tal realidade iria tornar-se cada vez mais notória à medida que se expandisse a Igreja. 

Qual homem, por mais célebre que tenha sido, ocupa na História papel tão central? 

Ao longo dos séculos, os acontecimentos se sucederam, ruíram povos, impérios e nações. Outros surgiram no seu lugar. Até o fim do mundo, quantas civilizações desaparecerão ainda? 

Em nossos dias, Jesus já é conhecido em toda a terra. Podem os homens aceitá-Lo, rejeitá-Lo ou mesmo persegui-Lo; não, porém, permanecer indiferentes diante d’Ele. As perseguições são, elas mesmas, testemunho de sua incomensurável grandeza. 

                                                                       * * * 

A própria seqüência do ciclo litúrgico — que rememora ao longo do ano toda a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, até sua Ascensão aos Céus — é uma forma de continuamente ressaltar, nas celebrações eucarísticas de todas as igrejas da terra, essa posição única de nosso Redentor no centro dos acontecimentos humanos. 

E a cada novo ano, ao se comemorar o Natal, não há quem não pare um instante e não sinta o apelo suave e consolador do Deus-Menino, infundindo Paz e convidando a segui-Lo. Esse convite será aceito ou recusado. Mas Cristo não deixou de constituir o centro da existência de cada um de nós. E assim será de forma crescente, até o fim dos tempos, quando Jesus se manifestar gloriosamente a toda a humanidade, tornando-se de forma irrecusável e visível o centro, não mais da simples História, mas de toda a eternidade.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O mais misterioso nascimento!

Nas sombras do dia encontramos uma certa imagem do mistério, mas é sobretudo à noite que a linguagem deste é mais intensa e simbólica. E foi este o período escolhido por Deus para o nascimento de seu Unigênito. Ele deveria surgir no silêncio, desconhecido para a grande maioria dos homens. A revelação de sua existência acompanharia os lentos ritmos da natureza criada, como a suavidade de um nascer do sol. Os méritos de nossa fé necessitavam de tal procedimento para poder atingir um elevado grau. Só mesmo por efeito da graça poderia uma criatura inteligente adorar o Salvador posto sobre as palhas de uma manjedoura, ladeado por um burro e um boi.
O povo dormia, a quietude cobria como um denso manto as mais variadas regiões daqueles arredores. Em meio ao frio do inverno, as estrelas cumpriam, despertas e cintilantes, sua função, os pastores guardavam suas ovelhas e só Maria e José, com os Anjos, adoravam o recém-nascido Menino-Deus. O dilúculo de uma nova era se iniciava numa simples gruta.
Como pode ter acontecido que o mais importante nascimento da História tenha-se dado em tão grande anonimato?
Se alguém daquela época conseguisse avançar seu próprio calendário por 2011 anos e contemplasse, com os conhecimentos de hoje, o Divino Infante, indizível seria sua consolação e alegria.
As Escrituras de alguma forma davam elementos para o povo eleito esperar uma intervenção divina para breve, e o próprio Espírito Santo deveria agir sobre as almas nesse sentido. Mas, exceção feita de Maria e José, ninguém chegaria a tão elevada conclusão. Naquela noite, a União Hipostática de duas naturezas, uma criada e outra divina, se tornava realidade aos olhos humanos, mas só a Deus cabiam as qualidades para entender tão elevado mistério.
Assim age a Divina Providência ao longo da História. Para se entender o mais fundo de suas ações, é preciso, quase sempre, deixar correr o tempo, e ser auxiliado pela sua graça. Nada se passa no processo humano sem ter por trás motivos que nossa razão, por si só, não alcança.
Vivemos hoje numa noite mais densa, e talvez até sem as estrelas daquela Beata nox. Terão chegado a seu termo os efeitos do nascimento de um Deus? Há pouco ainda, na festa de Todos os Santos, líamos no Apocalipse que um Anjo ordenou a outros quatro que tinham recebido o poder de danificar a terra e o mar: “Não façais mal à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus” (Ap 7, 3). Quiçá não dirá respeito à nossa época essa profecia. Horrores e pecados não faltariam para atrair à terra Anjos justiceiros tomados de santa cólera. Mas, estará completo o número dos justos? Não são, desta vez, as Escrituras a nos falarem, mas sim a própria Santíssima Virgem, em Fátima: “Por fim, meu Imaculado Coração triunfará”.
Aproximemo-nos do Menino-Deus nesta noite de Natal e, pelas mãos de Maria e José, ofereçamos a Ele nossa Fé em seu poder, agindo sobre os desastres e crises atuais e deles fazendo nascer o Reino glorioso de sua e nossa Mãe Santíssima.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O tempo em que fomos visitados

 “Se tu também compreendesses hoje o que te pode trazer a paz! Agora, porém, isso está  escondido aos teus olhos!” (Lc 19, 42). Jesus pronunciou essas palavras, entre comovedores soluços, enquanto suas divinas lágrimas Lhe escorriam pela face, infiltrando-se pelas barbas adentro.
Uma das mais emocionantes passagens do Evangelho. Sendo Deus, o Cristo é também homem com todos os sentimentos próprios à nossa natureza, se bem que totalmente isento do pecado. Seu Coração possui uma sensibilidade perfeita e acabada, e, com um insuperável instinto de sociabilidade, transbordava dos melhores anseios de fazer bem a todos e a cada um. Aquele era o seu povo e ali estava a cidade da “beleza perfeita, alegria do universo” (Lm 2, 15). Nela se encontrava o Templo no qual Ele havia sido oferecido ao Pai por Simeão, e resgatado por Maria e José. Por suas paredes e colunas ainda ecoavam seus ensinamentos de
Mestre e Profeta. Ruas, vielas, casas e praças, todos os edifícios haviam sido acariciados pelas luzes da presença do Salvador, embelezados por seus incontáveis olhares e vivificados pelas suas palavras de plena sabedoria. Seu Coração necessitava de reciprocidade, era indispensável que Jerusalém aceitasse a paz oferecida com tanta exuberância.
Nessa hora de tristeza o Redentor recordaria sua Encarnação, seu nascimento na Gruta em Belém, seu empenho enquanto Deus, desde toda a eternidade, de oferecer a paz aos seus, mesclado agora com os anseios de seu humano e Sagrado Coração.
Jesus talvez já houvesse chorado em sua tenra infância, na manjedoura onde seu delicado corpo repousava; e, como já conhecia todo o seu futuro, via com antecedência, nessa ocasião, o pranto sobre Jerusalém. Feria-O também, e muito, o considerar os trágicos efeitos dessa recusa: “Dias virão em que os inimigos farão trincheiras contra ti e te cercarão de todos os lados. Eles esmagarão a ti e a teus filhos. E não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não conheceste o tempo em que foste visitada” (Lc 19, 43-44).
Mas essa é a paz oferecida a toda e qualquer cidade ao longo da História, até o fim do mundo. Jesus, em nenhum momento, deixa de oferecê-la a cada um de nós, aos povos e às nações. Em meio às crises múltiplas, universais e crescentes, o Menino Deus estará no Presépio convidando-nos a abraçar a verdadeira paz. Ali — não em lágrimas, mas sorridente — de braços abertos acolherá nossas súplicas e nos concederá a paz, não como no-la oferece o mundo. Dispõe-se a saciar-nos de nossa sede de infinito, aquietando nossas paixões na temperança do amor à virtude e à santidade.
Saibamos nós, nossas cidades e nações aproveitar essa tão excelente ocasião para resolver todas as crises de nossos dias, amando e vivendo essa tranquilidade de alma e de circunstâncias entregue a nós na Noite de Natal. E assim reconheceremos “o tempo em que fomos visitados”.