terça-feira, 1 de novembro de 2011

Sacerdos alter Christus

Ficarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20). Que extraordinária promessa nos fez o Senhor, pouco antes de subir ao Céu! Falava Ele com os Apóstolos e, embora tais palavras fossem dirigidas a todo o gênero humano, continham uma mensagem especial para eles.
Com efeito, Cristo nosso Senhor se faria presente entre nós de vários modos, mas particularmente na voz infalível do Papa, na distribuição dos Sacramentos e, em especial, na sua real presença na Sagrada Eucaristia. Ora, todas essas maneiras de presença estão vinculadas ao sacerdócio e são dele dependentes. Era natural, pois, que Jesus, ao instituir a Santa Igreja, a entregasse à direção de homens que deviam ser seus representantes e sucessores: “Sacerdos alter Christus”.
Seja no confessionário, no altar ou no púlpito, o sacerdote é outro Cristo, e está continuando a própria missão do Homem-Deus nesta terra, quer dizer, a de ensinar a verdade, a de santificar e a de conduzir os homens no caminho da salvação.
Quão enorme é o poder de perdoar os pecados! Maior até do que o de curar os paralíticos, conforme afirmou o próprio Jesus (Mt 9, 2-7). Esse poder, Ele o conferiu aos Apóstolos para que o perpetuassem na sua Igreja, ao soprar sobre eles e dizer: “Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (Jo 20, 22-23).
E o que dizer do poder de celebrar a Eucaristia, consagrando o pão e o vinho? Sobre a grandeza da Celebração Eucarística, os Doutores, os Padres da Igreja e os Papas nos deixaram belas e profundas reflexões, como esta, de João Paulo II: “Diante desta extraordinária realidade ficamos atônitos e abismados: como é grande a humildade condescendente com que Deus Se quis ligar ao homem! Se nos detemos comovidos diante do Presépio contemplando a Encarnação do Verbo, como exprimir o que se sente diante do altar onde, através das pobres mãos do sacerdote, Cristo torna presente no tempo o seu Sacrifício? Só nos resta ajoelhar e em silêncio adorar este mistério supremo da fé” (Carta aos Sacerdotes, Quinta-Feira Santa de 2004).
Entende-se melhor por que São Francisco de Assis osculava o lugar por onde havia passado um sacerdote e jamais aceitou ser ordenado presbítero, julgando-se indigno (por causa de sua extrema humildade, é claro) de ser elevado a esse extraordinário estado.
Não é, portanto, sem fundamento que, nas relações humanas, haja uma exigência quanto à transparência dos variados aspectos da divina figura de Jesus nos seus sacerdotes, como afirmava São Paulo: “É preciso que os homens vejam em nós ministros de Cristo e dispensadores dos mistérios de Deus” (1 Cor 4, 1).
Sobretudo no mais recôndito de sua alma, o padre é um outro Cristo, por ter recebido uma especial consagração, participativa daquela verificada na natureza humana de Nosso Senhor por sua união hipostática com o Verbo. Um só é o sacerdócio: o de Jesus Cristo, participado e continuado ao longo da História por seus sacerdotes.

domingo, 23 de outubro de 2011

PARA AS ALMAS ÁVIDAS DE FÉ

Katechesis, termo grego, significa instrução pela palavra oral, especialmente pelo sistema de perguntas e respostas. O primeiro catequista da História foi o próprio Jesus, que com frequência usava esse método para instruir: “No dizer do povo, quem é o Filho do Homem? — E vós, quem dizeis que Eu sou?”
Se os escritos do Novo Testamento foram, de algum modo, catecismos, a primeira obra definidamente catequética foi escrita por São Cirilo, no ano 347, num estilo muito claro e lógico. Por volta do ano 400 ficou famoso um tratado redigido por Santo Agostinho, que acabou sendo adotado universalmente. Durante a Idade Média foram elaborados diversos catecismos muito populares, mas era impossível fazer chegar um exemplar a cada família, devido ao alto custo das reproduções.
Essa situação mudou de forma extraordinária com a invenção da imprensa, que levou à publicação de edições em todas as línguas da Europa.
No século XVI surgiu o primeiro catecismo internacionalmente famoso, do jesuíta holandês São Pedro Canísio, visando reparar o dano causado no meio do povo fiel pelos escritos protestantes. Tal foi seu sucesso que “canísio” virou sinónimo de “catecismo”. Pouco depois, o Concílio de Trento viu a necessidade de um manual popular que aplicasse “um remédio salutar” àquela situação. Por incitamento de São Carlos Borromeu foi então publicado o Catecismo Romano, um método “para ensinar os rudimentos da Fé, que sempre gozou de grande autoridade”.
Multiplicaram-se desde então os catecismos, nacionais, regionais ou diocesanos. Por ocasião do Concílio Vaticano I (1869-1870), urgiu-se a redação de um catecismo popular universal. Os países cristãos ocidentais passavam então por grandes transformações, como as enormes ondas de emigrantes que partiam da Europa em várias direções. Sendo único o catecismo, um católico sentir-se-ia em casa tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, na África do Sul ou na Austrália.
Circunstâncias históricas impediram que tal catecismo fosse preparado naquela ocasião. Mas não demorou para ser posto em prática o projeto, de modo bastante inesperado. O Papa São Pio X elaborou um catecismo simples e breve, na clássica forma de perguntas e respostas, expressando o desejo de que fosse adotado em toda a Itália. Contudo, notando sua utilidade, um amplo movimento de clérigos e leigos advogou sua adoção no mundo inteiro, e conseguiu seu intento.
Correram as décadas, e o nosso mundo globalizado passou a exigir um novo catecismo, capaz de afrontar os desafios do momento. Quando o Sínodo Extraordinário dos Bispos de 1985 sugeriu a publicação de um compêndio sobre Fé e Moral, que servisse de ponto de referência para todos os outros catecismos, o saudoso Papa João Paulo II abraçou a ideia e promoveu sua publicação, que veio a lume em 1992.
Faltava responder às necessidades da maioria dos fiéis, pouco habituados aos conceitos teológicos, e imersos na “civilização da imagem” — que não favorece abstrações doutrinárias. Era indispensável um compêndio do catecismo numa linguagem mais acessível. Foi o próprio João Paulo II quem o encomendou ao então Cardeal Ratzinger.
O Papa Bento XVI apresentou esse trabalho quando centenas de milhões de pessoas, católicas e não-católicas, sentem o agravamento da crise geral e voltam seus olhos esperançosos para a Barca de Pedro, à procura de algo firme em que se agarrar.
Ninguém ama o que não conhece. A Igreja colocou, assim, um esplêndido manual de educação religiosa ao alcance das almas ávidas de fé.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Perdão

Pode-se discutir sobre qual a posição normal do homem, se de pé ou sentado. E haverá um sem-número de opiniões discordantes a este respeito. Muito mais importante, e mais fácil, será chegar-se a um acordo quanto à necessidade de ajoelhar-se diante de Deus, como símbolo da nossa humildade ante o Criador. Em sua infinita e onipotente majestade, como também nas manifestações de sua inesgotável misericórdia, Jesus mais nos atende e nos perdoa ao encontrar-nos de joelhos no chão.
Esta atitude é justamente o que falta à nossa era histórica.
Grandes inventos e descobertas fabulosas, em meio a um progressivo afastamento de Deus, conferem à humanidade uma ilusão cada vez mais acentuada sobre sua própria grandeza. Erguida sobre um pedestal de barro, ela alça ao ar seu troféu de vanglória, sem se dar conta de quanto já vacilam seus pés sobre a inconsistência do solo onde pisam. Ó ciência, onde está tua vitória? Em seu nascedouro, o progresso moderno e as novas técnicas visavam o bem de todos. Hoje, porém, quantos deles passaram a ser instrumentos de destruição! Por mais que se esforcem os poderes legitimamente constituídos para refrear, corrigir e ordenar os desvios e — por que não dizer? — as loucuras dos tempos presentes, nada conseguirão.
Para isto, a única solução cabível, honesta e eficaz consiste em fazermos uso do genuflexório para pedir perdão a Deus pelo fato de O termos esquecido e implorar que nos receba de volta em seu amparo, ainda que seja na condição de servos.
Não estarão longe os dias de calamidade e miséria, se continuarmos na terrível trilha por nós escolhida. Mas será necessário chegarmos ao extremo de comer as bolotas dos porcos, para tomarmos a decisão de retornar à casa paterna? Não! A qualquer altura do caminho, bastará nos ajoelharmos e batermos no peito, implorando misericórdia.
Façamos penitência e, buscando um confessionário, declinemos com humildade todas as nossas faltas, à espera da absolvição sacramental, a fim de recuperarmos o estado de graça e restabelecer-se em nós a inteira amizade com Deus.
O grande Patriarca da Igreja muito pode nos ajudar nessa sobrenatural tarefa. São José possui uma especial audiência junto a Jesus e a Maria, sua intercessão é poderosa e ele muito se alegra ao ser invocado. Só um recurso ao Céu poderá desviar as catástrofes que se avolumam no horizonte de nosso amanhã. Para que elas não nos colham, é indispensável à humanidade... dobrar os joelhos.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Nunca por causa dos trabalhos deve-se deixar a oração para segundo plano. A força da ação está na oração.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Em Jesus encontramos a solução

Eis que estarei convosco todos os dias até o fim dos séculos” (Mt 28,20). Solene compromisso, penhor divino, últimas palavras ditas por Jesus nesta terra, no exato momento em que estava para iniciar sua ascensão ao Céu. Sinal de sua inesgotável bondade e de seu desejo de permanecer conosco.
Já antes havia Ele prometido: “Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles” (Mt 18, 20). No entanto, há um modo mais esplêndido e palpável de sua permanência conosco: pela infalibilidade pontifícia. Cada vez que o Papa se pronuncia de maneira infalível, podemos estar certos de que é o próprio Jesus que nos fala por meio de seu Vigário na terra. Devemos aderir a essas definições de modo dócil, ardoroso e constante, pois é através da infalibilidade pontifícia que temos entre nós a presença de Jesus Verdade.
Outra presença de Jesus se manifesta através das almas que o Espírito Santo conserva em sua graça. Variam as épocas, mudam-se os costumes, impérios são arrasados, a ciência progride, mas subsiste sempre um pugilo de homens e mulheres de alta virtude, um Agostinho ou uma Clara de Assis, um Inácio de Loyola ou uma Maria Goretti, uma Teresa de Ávila ou um Pio de Pietrelcina, nos quais podemos contemplar nosso Salvador. É Jesus Santidade, que transparece em todos os tempos, algo indispensável até mesmo para a continuidade da Igreja.
Contudo, nada pode superar a presença real no Santíssimo Sacramento, Jesus Eucaristia – Jesus Totalidade, em corpo, sangue, alma e divindade, presença substancial, se bem que sob as aparências de pão e de vinho. Era a essa presença que Ele mais especificamente se referira quando disse que permaneceria conosco.
Talvez nos sintamos oprimidos diante da enormidade dos problemas que afligem nossos dias. Ora, encontrar solução para eles é muito menos difícil do que podemos imaginar. Basta procurarmos aquele mesmo Jesus que trilhou os caminhos da Terra Santa, curando, perdoando, ressuscitando e salvando, e que hoje, por infinito amor a nós, se encontra à nossa espera sob o véu do Pão dos Anjos.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Por fim meu Imaculado Coração Triunfará

Era noite, a ordem do universo havia sido abalada no seu cerne mais íntimo, até as areias dos oceanos e dos astros sofriam as conseqüências do grande crime do deicídio iniciado no Horto das Oliveiras e consumado no Calvário. No sepulcro jazia um Corpo dilacerado pela ação dos flagelos da impiedade, tendo sua cabeça perfurada por espinhos e o costado por uma lança. No lado externo encontram-se vigias mercenários a fim de evitar o roubo daqueles restos mortais. Essa era a grande tensão que os afligia, e sua desconfiança se concentrava em qualquer movimento ou ruído pelas redondezas. Incrédulos, não penetravam nos mistérios daquela segunda noite de trabalho.
A boa distância dali, dormiam os discípulos o sono leve e assustadiço dos apavorados. Sentiam o peso das ameaças, da perseguição e da própria consciência. Tudo parecia perdido e nenhuma fímbria de esperança se fazia sentir no horizonte carregado de maus pressentimentos. O Mestre fizera um número incontável de milagres e chegara até mesmo a ressuscitar mortos, mas como poderia Ele ressuscitar a Si próprio, estando inerte a sua capacidade de ação? Importava sobremaneira que as portas e janelas estivessem bem trancadas, pois a qualquer momento poderiam, também eles, serem alvo de investida dos mesmos agressores...
As almas mais fervorosas, como Maria Madalena e as Santas Mulheres, ansiavam por conferir àquele Corpo todo o calor da devoção que lhes transbordava dos corações. Tinham toda razão, pois, sem nunca terem ouvido uma aula de Teologia, guardavam um culto de latria por aquele defunto e, realmente, apesar de Corpo e Alma estarem separados pela morte, ambos se encontravam unidos a Deus pelos fortíssimos laços da União Hipostática e, portanto, seu cadáver bem merecia ser adorado.
Os objetivos de cada conjunto eram bem distintos. Um só ponto lhes era comum: a ninguém ocorria a idéia de uma auto-ressurreição. Apenas uma entre todos aguardava o grande momento, com fé insuperável: Maria, Mãe de Jesus.
A certa altura da madrugada do terceiro dia, eis que a lápide sofre um grande golpe e salta longe, os guardas desmaiam e, refulgente como um sol, em toda a sua glória, ressurge o Mestre dando início a uma nova era histórica...
* * *
Percorrendo este mundo afora, em especial a própria e tão querida Europa constata-se uma enorme crise de espiritualidade. Deus deixou de ser o centro das preocupações, como fora outrora, e o materialismo substituiu, a passos apressados, a verdadeira religião. Uma dramática situação pois, segundo uma declaração de Bento XVI, na época Cardeal Ratzinger, a Europa “parece ter-se esvaziado em seu interior, paralisada, em certo sentido, pela crise de seu sistema circulatório”. Dizia ainda mais: “Impõe-se uma comparação com o Império Romano em decadência: ele ainda funcionava como um grande arcabouço histórico, mas na realidade vivia já daqueles que deviam dissolvê-lo, pois nele próprio já não restava nenhuma energia vital” (Conferência no Senado italiano, 13/6/2004).
Porém, não será essa a situação dos cinco continentes, com estes ou aqueles conformes? De fato, o mundo caminha para uma terrível ruína, em todos os campos: social, econômico, religioso, ecológico, moral, etc. Serão nossos horizontes, hoje, menos carregados que os dos Apóstolos naquela trágica noite? E nosso sono mais tranqüilo? São menores as ameaças que nos cercam e mais leves nossas consciências?
Eis a necessidade de nos unirmos à Fé de Maria Santíssima nesta terrível hora de apreensão e com Ela crermos numa nova ressurreição: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O resto vos será dado por acréscimo

Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol? Uma geração passa, outra vem; mas a terra sempre subsiste. O sol se levanta, o sol se põe; apressa-se a voltar a seu lugar; em seguida, se levanta de novo. O vento vai em direção ao sul, vai em direção ao norte, volteia e gira nos mesmos circuitos. Todos os rios se dirigem para o mar, e o mar não transborda. Em direção ao mar, para onde correm os rios, eles continuam a correr. Todas as coisas se afadigam, mais do que se pode dizer. A vista não se farta de ver, o ouvido nunca se sacia de ouvir. O que foi é o que será: o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol (Ecl. 1, 3-9).
Dura é a cerviz do homem quando se trata de admitir essa lei da História, tão claramente enunciada pelo escritor sagrado. Analisada pelo prisma meramente teórico, tal vez ninguém se levante contra a evidência dessas afirmações da Escritura; contudo, na prática, toda a humanidade delas se esquece.
Neste terceiro milênio da Era Cristã, quão vantajoso seria, para nosso presente e futuro, viver o sábio conselho do Eclesiastes: “Vaidade das vaidades...” A experiência de nossos antepassados, com seus sucessos e fracassos, deveria ser suficiente para nos ajudar a encontrar a verdadeira felicidade. Uma expressão francesa, “tudo passa, tudo se quebra, tudo se desgasta, e tudo se substitui”, exprime de modo inteligente e sintético o mesmo vazio das coisas deste mundo, e a frustração de todos aqueles que puseram apenas nelas a sua alegria. É dessa fatuidade que advêm as guerras, inseguranças, rixas, infortúnios, malogros, desânimos e, às vezes, o próprio desespero.
Mas onde procurar a felicidade, pela qual todo homem anseia? Nos exemplos e lições do Divino Mestre, deixados no Evangelho, cujo cerne se lê em São Lucas: “Buscai, pois, o reino de Deus e sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo!”