quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A restituição

“Os céus publicam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra das suas mãos”, canta o Rei Davi no Salmo 18, resumindo numa frase a restituição dos seres minerais a Deus, por terem sido objeto de seu dom criador. São inanimados, mas se vida possuíssem, cantariam eternamente essa grande dadivosidade divina a fim de fazer-Lhe retornar em louvor os bens recebidos. E continua o Salmista: “Um dia transmite esta mensagem ao outro dia, e uma noite comunica-a à outra noite. Não é uma palavra nem uma linguagem, cuja voz não possa perceber-se: o seu som estende-se por toda a terra e as suas palavras até as extremidades do mundo” (Sl 18, 3-5).
Até os pagãos chegaram a reconhecer essa soit-disant manifestação do universo sideral que tão claramente transparece nas considerações de Platão quando afirma deslocarem-se os astros, emitindo cada qual sua melodia, constituindo em seu conjunto a grande sinfonia do universo. Sim, de fato, Deus onipotente, ao criar, só poderia tê-lo feito para sua própria glória. Essa é a causa final da obra dos seis dias, surgida ad extra da Trindade Santa.
Pelo simples fato de existirem, os seres minerais ou inanimados rendem a Deus uma glória material, mas aos inteligentes — anjos e homens — cabe contemplar os reflexos d’Ele esparsos por esse incomensurável horizonte e, no mais perfeito dos movimentos, segundo São Tomás, fazer retornar à Causa Eficiente, ou seja, ao próprio Deus, o seu efeito. É o que se denomina a glória formal ou extrínseca. Têm anjos e homens o dever moral de restituir a Deus, em ação de graças, toda a maravilhosa obra da criação, reconhecendo-Lhe a autoria, sob o risco, ao não fazê-lo, de cair, por castigo, nos piores horrores morais, conforme afirma São Paulo em sua epístola aos Romanos (Rom 1, 18-32).
É justamente nessa perspectiva que se encontra a grande trama da história dos anjos e homens em estado de prova. A primeira grande batalha deu-se no céu entre São Miguel e os anjos bons de um lado, e Satanás e seus sequazes de outro, e o cerne da dissensão não foi senão esse. Ao Non serviam correspondeu o magnífico Quis ut Deus. A apropriação foi, assim, eternamente derrotada pela restituição. É esse também o cerne da bênção de Deus aos povos, às nações, às famílias e aos indivíduos e até mesmo às eras históricas. Os céus se tornam dadivosos em relação àqueles que sabem proclamar as belezas e bondade das criaturas, amorosamente considerando o Ser substancial que as fez surgir do nada.
A gratidão é a mais frágil das virtudes, segundo se costuma afirmar. E realmente é o que se nota com tanta freqüência no relacionamento humano. Mais ainda, quanto as guerras, os crimes, os desentendimentos, etc., não têm em sua raiz um não-reconhecimento dos valores alheios? Sim, como a história angélica, também a humana se concentra nesses dois pólos: o da restituição e o da apropriação. Aí está o destino do processo humano, e do próprio terceiro milênio.
Não é difícil prognosticar o nosso amanhã: se hoje restituímos a Deus o que é de Deus, será de bênção, paz e alegria; se for de apropriação, o castigo, a guerra e a frustração constituirão a paga em seu entardecer.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O mais misterioso nascimento!

Nas sombras do dia encontramos uma certa imagem do mistério, mas é sobretudo à noite que a linguagem deste é mais intensa e simbólica. E foi este o período escolhido por Deus para o nascimento de seu Unigênito. Ele deveria surgir no silêncio, desconhecido para a grande maioria dos homens. A revelação de sua existência acompanharia os lentos ritmos da natureza criada, como a suavidade de um nascer do sol. Os méritos de nossa fé necessitavam de tal procedimento para poder atingir um elevado grau. Só mesmo por efeito da graça poderia uma criatura inteligente adorar o Salvador posto sobre as palhas de uma manjedoura, ladeado por um burro e um boi.
O povo dormia, a quietude cobria como um denso manto as mais variadas regiões daqueles arredores. Em meio ao frio do inverno, as estrelas cumpriam, despertas e cintilantes, sua função, os pastores guardavam suas ovelhas e só Maria e José, com os Anjos, adoravam o recém-nascido Menino-Deus. O dilúculo de uma nova era se iniciava numa simples gruta.
Como pode ter acontecido que o mais importante nascimento da História tenha-se dado em tão grande anonimato?
Se alguém daquela época conseguisse avançar seu próprio calendário por 2011 anos e contemplasse, com os conhecimentos de hoje, o Divino Infante, indizível seria sua consolação e alegria.
As Escrituras de alguma forma davam elementos para o povo eleito esperar uma intervenção divina para breve, e o próprio Espírito Santo deveria agir sobre as almas nesse sentido. Mas, exceção feita de Maria e José, ninguém chegaria a tão elevada conclusão. Naquela noite, a União Hipostática de duas naturezas, uma criada e outra divina, se tornava realidade aos olhos humanos, mas só a Deus cabiam as qualidades para entender tão elevado mistério.
Assim age a Divina Providência ao longo da História. Para se entender o mais fundo de suas ações, é preciso, quase sempre, deixar correr o tempo, e ser auxiliado pela sua graça. Nada se passa no processo humano sem ter por trás motivos que nossa razão, por si só, não alcança.
Vivemos hoje numa noite mais densa, e talvez até sem as estrelas daquela Beata nox. Terão chegado a seu termo os efeitos do nascimento de um Deus? Há pouco ainda, na festa de Todos os Santos, líamos no Apocalipse que um Anjo ordenou a outros quatro que tinham recebido o poder de danificar a terra e o mar: “Não façais mal à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus” (Ap 7, 3). Quiçá não dirá respeito à nossa época essa profecia. Horrores e pecados não faltariam para atrair à terra Anjos justiceiros tomados de santa cólera. Mas, estará completo o número dos justos? Não são, desta vez, as Escrituras a nos falarem, mas sim a própria Santíssima Virgem, em Fátima: “Por fim, meu Imaculado Coração triunfará”.
Aproximemo-nos do Menino-Deus nesta noite de Natal e, pelas mãos de Maria e José, ofereçamos a Ele nossa Fé em seu poder, agindo sobre os desastres e crises atuais e deles fazendo nascer o Reino glorioso de sua e nossa Mãe Santíssima.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O tempo em que fomos visitados

 “Se tu também compreendesses hoje o que te pode trazer a paz! Agora, porém, isso está  escondido aos teus olhos!” (Lc 19, 42). Jesus pronunciou essas palavras, entre comovedores soluços, enquanto suas divinas lágrimas Lhe escorriam pela face, infiltrando-se pelas barbas adentro.
Uma das mais emocionantes passagens do Evangelho. Sendo Deus, o Cristo é também homem com todos os sentimentos próprios à nossa natureza, se bem que totalmente isento do pecado. Seu Coração possui uma sensibilidade perfeita e acabada, e, com um insuperável instinto de sociabilidade, transbordava dos melhores anseios de fazer bem a todos e a cada um. Aquele era o seu povo e ali estava a cidade da “beleza perfeita, alegria do universo” (Lm 2, 15). Nela se encontrava o Templo no qual Ele havia sido oferecido ao Pai por Simeão, e resgatado por Maria e José. Por suas paredes e colunas ainda ecoavam seus ensinamentos de
Mestre e Profeta. Ruas, vielas, casas e praças, todos os edifícios haviam sido acariciados pelas luzes da presença do Salvador, embelezados por seus incontáveis olhares e vivificados pelas suas palavras de plena sabedoria. Seu Coração necessitava de reciprocidade, era indispensável que Jerusalém aceitasse a paz oferecida com tanta exuberância.
Nessa hora de tristeza o Redentor recordaria sua Encarnação, seu nascimento na Gruta em Belém, seu empenho enquanto Deus, desde toda a eternidade, de oferecer a paz aos seus, mesclado agora com os anseios de seu humano e Sagrado Coração.
Jesus talvez já houvesse chorado em sua tenra infância, na manjedoura onde seu delicado corpo repousava; e, como já conhecia todo o seu futuro, via com antecedência, nessa ocasião, o pranto sobre Jerusalém. Feria-O também, e muito, o considerar os trágicos efeitos dessa recusa: “Dias virão em que os inimigos farão trincheiras contra ti e te cercarão de todos os lados. Eles esmagarão a ti e a teus filhos. E não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não conheceste o tempo em que foste visitada” (Lc 19, 43-44).
Mas essa é a paz oferecida a toda e qualquer cidade ao longo da História, até o fim do mundo. Jesus, em nenhum momento, deixa de oferecê-la a cada um de nós, aos povos e às nações. Em meio às crises múltiplas, universais e crescentes, o Menino Deus estará no Presépio convidando-nos a abraçar a verdadeira paz. Ali — não em lágrimas, mas sorridente — de braços abertos acolherá nossas súplicas e nos concederá a paz, não como no-la oferece o mundo. Dispõe-se a saciar-nos de nossa sede de infinito, aquietando nossas paixões na temperança do amor à virtude e à santidade.
Saibamos nós, nossas cidades e nações aproveitar essa tão excelente ocasião para resolver todas as crises de nossos dias, amando e vivendo essa tranquilidade de alma e de circunstâncias entregue a nós na Noite de Natal. E assim reconheceremos “o tempo em que fomos visitados”.

domingo, 13 de novembro de 2011

A força da santidade

Nosso Senhor Jesus Cristo não só afirmou em várias ocasiões sua divindade — “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30) —, como também a confirmou por meio de portentosos milagres.
Nenhum mal resistia a suas ordens, quer fosse a febre ou a paralisia, a surdez ou a mudez, a cegueira ou a lepra, e até mesmo a morte, pois Ele ressuscitou o filho da viúva de Naim, a filha de Jairo e Lázaro. Seu domínio se estendia sobre os seres minerais, vegetais e animais: a seu comando, a tempestade se amainou no Mar da Galiléia, a água se transformou em vinho, pães e peixes se multiplicaram. Mais ainda, os demônios se submeteram prontamente, como nos casos dos possessos de Gerasa e de Cafarnaum. E todas as suas profecias se cumpriram: a traição de Judas, as três negações de Pedro, a Paixão, a destruição de Jerusalém, as perseguições sofridas pelos Apóstolos. Por fim, seu poder se manifesta com todo o esplendor em sua própria Ressurreição.
Com esse domínio divino sobre toda a Criação, Jesus teria podido facilmente conceder uma irresistível graça de santificação aos homens, assim como livrá-los de tentações e más inclinações. Afinal, é ardente seu desejo de que todos se salvem, a ponto de ter entregado sua própria vida com essa finalidade.
Mas, então, por que Ele não agiu assim?
Em sua infinita sabedoria, Nosso Senhor deseja que as almas se abram para Ele por puro amor, deixando-se trabalhar por sua graça. Coloca os homens no estado de prova, a fim de adquirirem méritos, fazendo bom uso do livre arbítrio.
Não é fácil a batalha pela virtude. Deus conhece nossas debilidades muito melhor do que nós mesmos, Ele que “sonda os rins, e penetra até o fundo do coração” (Sb 1,6). Sabe quão árduo é o esforço para andar no caminho reto, e ampara quem é provado por permissão divina. Visando ajudar a humanidade a salvar-se, deu-lhe preciosos recursos como os Sacramentos, entre os quais se destacam a Eucaristia e a Reconciliação, a Liturgia, com suas diversas cerimônias, e o ensinamento infalível do Papa.
Suscitou também pessoas virtuosas, cujos exemplos enlevam e arrastam. Um Paulo de Tarso fez a Igreja nascente se multiplicar pela orla do Mediterrâneo; um Francisco de Assis e um Domingos de Gusmão conseguiram deter a crise espiritual que ameaçava o mundo cristão no século XIII; um Pedro Canísio resgatou para a Igreja vastas áreas perdidas por ela no mundo germânico. Pessoas não brilhantes de inteligência, como João Maria Vianney ou José de Cupertino, foram pontos de referência em seus dias. Teresa de Ávila cativou a Espanha, Hildegarda de Bingen e Catarina de Siena foram conselheiras até dos grandes deste mundo. Bernon, Odon, Maïeul, Odilon e Hugo — os cinco abades santos de Cluny — exerceram uma tal força de atração sobre as multidões e as elites, que sua Ordem moldou a Europa católica na Idade Média.
Tudo isso, sem usar nenhum meio violento, nenhuma coerção, sem riquezas nem manobras políticas, e sem truques publicitários. Mas pura e simplesmente pela suave e irresistível força da santidade.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Rei dos Reis

Viviam os hebreus sob a proteção do Senhor e eram por Ele orientados através de seus profetas. Era a única nação a gozar de um regime teocrático. Debaixo dessa forma de governo, haviam abandonado a escravidão egípcia, caminhado pelo deserto entre milagres durante quarenta anos e vieram, por fim, se estabelecer na terra onde corria o leite e o mel. Apesar de terem passado pelas agruras dos castigos, por não haverem cumprido suas promessas, as intervenções de Deus, libertando-os de sucessivos opressores, marcaram- lhes a história, consagrando-os como o povo eleito.
Entretanto, o seu glorioso passado não foi suficiente para fazê-los crer no poder de Deus, e menos ainda em seu amor, nem para evitar que eles desejassem ser como os demais povos: “Dá-nos um rei que nos governe, como o têm todas as outras nações” (I Sm 8, 5).
O mimetismo pode gerar bons frutos, quando movido por amor de Deus; mas, se tem suas raízes na comparação, inveja ou insegurança por falta de fé, como aconteceu com o povo hebreu, as consequências desastrosas são incalculáveis. A primeira delas é dar as costas ao próprio Deus: “Não é a ti que eles rejeitam, mas a Mim, pois já não querem que Eu reine sobre eles” (I Sm 8, 7). E apesar de ter ouvido dos lábios do profeta a ladainha das inferioridades do regime monárquico em relação ao teocrático, “o povo recusou ouvir a voz de Samuel. Não, disseram eles; é preciso que tenhamos um rei! Queremos ser como todas as outras nações!” (I Sm 8, 19-20).
É insondável a misericórdia divina. Correram os séculos e Deus atendeu prodigamente os anseios do povo eleito: deu não só a eles, mas a toda a humanidade, não um grande rei, mas o “Rei dos reis, Senhor dos senhores” (I Tm 6, 15). Concentrou num mesmo Homem a realeza, a “messianidade”, o profetismo e o sacerdócio, oferecendo-lhes um Reino eterno e infinitamente superior a qualquer outro deste mundo.
Nova rejeição! Porém, dentre os mortos Ele ressuscita e, sendo “as primícias dos que morrem” (I Cor 15, 20), oferece-nos a Ressurreição também a nós: “pois assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” (idem, 22).
Também insondável é a maldade humana. Eis a grande infidelidade de todas as nações de nossa era, a rejeição de Cristo Rei para agarrar-se aos prazeres perecíveis e fugazes, num mimetismo desgastado e sem sabor, de um mundo decrépito, falido e inautêntico. Quiçá nas solenidades da magna festa de Cristo Rei, Jesus Hóstia — tão realmente presente em Corpo, Sangue, Alma e Divindade quanto o estava em Israel — possa ouvir nosso brado: “Jesus, Filho de Davi, tende piedade de nós”. E assim, atendendo-nos, traga-nos a verdadeira paz da qual tanto hoje necessitamos.
Tanto mais que sendo “verdadeiramente ‘Rei do Universo’, Ele tudo governa e tudo renova para poder, no fim, ‘entregar’ o mundo ao Pai, ‘para que Deus seja tudo em todos (1 Cor 15, 28). (...) Aplicai-vos para que a sua realeza se manifeste no vosso esforço de viver as realidades do mundo, transfigurando- as com o amor e o louvor de Jesus.” (Discurso de SS. João Paulo II aos peregrinos, 25/11/2000).

sábado, 5 de novembro de 2011

Jesus fez infinitamente mais do que escrever

Jesus percorreu as cidades e aldeias pregando a Boa Nova, andou sobre as águas, transformou água em vinho, multiplicou pães e peixes, curou leprosos, restituiu a voz aos mudos, fez os surdos ouvirem, ressuscitou mortos... Entretanto, não escreveu sequer um bilhete, menos ainda um rolo de revelações.
Não Lhe custaria multiplicar as cópias das Escrituras já existentes. Poderia também mandar os Discípulos escreverem de imediato suas doutrinas em rolos de papiro e multiplicá-los — superando mesmo, se assim desejasse, a produção de todas as impressoras fabricadas desde Gutenberg até nossos dias — para serem distribuídos às multidões.
Entretanto, Ele nada escreveu, nem multiplicou qualquer pergaminho, mesmo dos que leu tantas vezes nas sinagogas. Também não deixou instrução alguma quanto à redação ou utilização de textos relativos à sua vida.
Que fez Ele? Infinitamente mais do que tudo isso: na Última Ceia, instituiu a Sagrada Eucaristia, pala qual permanece conosco com seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade.
E deixou-nos uma imagem viva de Si mesmo: a Igreja
Além disso, sabendo quanto os símbolos vivos são necessários ao homem para lhe dar o conhecimento de Deus, deixou-nos a Santa Igreja Católica, na qual sua fisionomia divina se reflete como num espelho. No ápice da Igreja, o Papa, o Doce Cristo na terra, a sucessão apostólica. Fez questão de nos dar também almas santas, como o Santo Cura d’Ars, do qual disse um advogado parisiense: “Vi Deus num homem”. Ao longo da História, afirma São Roberto Belarmino, sempre existiram e continuarão a existir almas confirmadas em graça, imagens de Deus, para manter visível a santidade da Igreja.
Por fim, como o homem precisa valer-se dos sentidos para ter uma idéia mais próxima de quem é Deus, colocou Ele à nossa disposição esse meio poderoso de melhor o conhecermos e servirmos, que se chama Arte, nas suas ricas e variadas manifestações: Escultura, Pintura, Música, Teatro, Arquitetura, etc.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Sacerdos alter Christus

Ficarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20). Que extraordinária promessa nos fez o Senhor, pouco antes de subir ao Céu! Falava Ele com os Apóstolos e, embora tais palavras fossem dirigidas a todo o gênero humano, continham uma mensagem especial para eles.
Com efeito, Cristo nosso Senhor se faria presente entre nós de vários modos, mas particularmente na voz infalível do Papa, na distribuição dos Sacramentos e, em especial, na sua real presença na Sagrada Eucaristia. Ora, todas essas maneiras de presença estão vinculadas ao sacerdócio e são dele dependentes. Era natural, pois, que Jesus, ao instituir a Santa Igreja, a entregasse à direção de homens que deviam ser seus representantes e sucessores: “Sacerdos alter Christus”.
Seja no confessionário, no altar ou no púlpito, o sacerdote é outro Cristo, e está continuando a própria missão do Homem-Deus nesta terra, quer dizer, a de ensinar a verdade, a de santificar e a de conduzir os homens no caminho da salvação.
Quão enorme é o poder de perdoar os pecados! Maior até do que o de curar os paralíticos, conforme afirmou o próprio Jesus (Mt 9, 2-7). Esse poder, Ele o conferiu aos Apóstolos para que o perpetuassem na sua Igreja, ao soprar sobre eles e dizer: “Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (Jo 20, 22-23).
E o que dizer do poder de celebrar a Eucaristia, consagrando o pão e o vinho? Sobre a grandeza da Celebração Eucarística, os Doutores, os Padres da Igreja e os Papas nos deixaram belas e profundas reflexões, como esta, de João Paulo II: “Diante desta extraordinária realidade ficamos atônitos e abismados: como é grande a humildade condescendente com que Deus Se quis ligar ao homem! Se nos detemos comovidos diante do Presépio contemplando a Encarnação do Verbo, como exprimir o que se sente diante do altar onde, através das pobres mãos do sacerdote, Cristo torna presente no tempo o seu Sacrifício? Só nos resta ajoelhar e em silêncio adorar este mistério supremo da fé” (Carta aos Sacerdotes, Quinta-Feira Santa de 2004).
Entende-se melhor por que São Francisco de Assis osculava o lugar por onde havia passado um sacerdote e jamais aceitou ser ordenado presbítero, julgando-se indigno (por causa de sua extrema humildade, é claro) de ser elevado a esse extraordinário estado.
Não é, portanto, sem fundamento que, nas relações humanas, haja uma exigência quanto à transparência dos variados aspectos da divina figura de Jesus nos seus sacerdotes, como afirmava São Paulo: “É preciso que os homens vejam em nós ministros de Cristo e dispensadores dos mistérios de Deus” (1 Cor 4, 1).
Sobretudo no mais recôndito de sua alma, o padre é um outro Cristo, por ter recebido uma especial consagração, participativa daquela verificada na natureza humana de Nosso Senhor por sua união hipostática com o Verbo. Um só é o sacerdócio: o de Jesus Cristo, participado e continuado ao longo da História por seus sacerdotes.