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domingo, 23 de outubro de 2011

PARA AS ALMAS ÁVIDAS DE FÉ

Katechesis, termo grego, significa instrução pela palavra oral, especialmente pelo sistema de perguntas e respostas. O primeiro catequista da História foi o próprio Jesus, que com frequência usava esse método para instruir: “No dizer do povo, quem é o Filho do Homem? — E vós, quem dizeis que Eu sou?”
Se os escritos do Novo Testamento foram, de algum modo, catecismos, a primeira obra definidamente catequética foi escrita por São Cirilo, no ano 347, num estilo muito claro e lógico. Por volta do ano 400 ficou famoso um tratado redigido por Santo Agostinho, que acabou sendo adotado universalmente. Durante a Idade Média foram elaborados diversos catecismos muito populares, mas era impossível fazer chegar um exemplar a cada família, devido ao alto custo das reproduções.
Essa situação mudou de forma extraordinária com a invenção da imprensa, que levou à publicação de edições em todas as línguas da Europa.
No século XVI surgiu o primeiro catecismo internacionalmente famoso, do jesuíta holandês São Pedro Canísio, visando reparar o dano causado no meio do povo fiel pelos escritos protestantes. Tal foi seu sucesso que “canísio” virou sinónimo de “catecismo”. Pouco depois, o Concílio de Trento viu a necessidade de um manual popular que aplicasse “um remédio salutar” àquela situação. Por incitamento de São Carlos Borromeu foi então publicado o Catecismo Romano, um método “para ensinar os rudimentos da Fé, que sempre gozou de grande autoridade”.
Multiplicaram-se desde então os catecismos, nacionais, regionais ou diocesanos. Por ocasião do Concílio Vaticano I (1869-1870), urgiu-se a redação de um catecismo popular universal. Os países cristãos ocidentais passavam então por grandes transformações, como as enormes ondas de emigrantes que partiam da Europa em várias direções. Sendo único o catecismo, um católico sentir-se-ia em casa tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, na África do Sul ou na Austrália.
Circunstâncias históricas impediram que tal catecismo fosse preparado naquela ocasião. Mas não demorou para ser posto em prática o projeto, de modo bastante inesperado. O Papa São Pio X elaborou um catecismo simples e breve, na clássica forma de perguntas e respostas, expressando o desejo de que fosse adotado em toda a Itália. Contudo, notando sua utilidade, um amplo movimento de clérigos e leigos advogou sua adoção no mundo inteiro, e conseguiu seu intento.
Correram as décadas, e o nosso mundo globalizado passou a exigir um novo catecismo, capaz de afrontar os desafios do momento. Quando o Sínodo Extraordinário dos Bispos de 1985 sugeriu a publicação de um compêndio sobre Fé e Moral, que servisse de ponto de referência para todos os outros catecismos, o saudoso Papa João Paulo II abraçou a ideia e promoveu sua publicação, que veio a lume em 1992.
Faltava responder às necessidades da maioria dos fiéis, pouco habituados aos conceitos teológicos, e imersos na “civilização da imagem” — que não favorece abstrações doutrinárias. Era indispensável um compêndio do catecismo numa linguagem mais acessível. Foi o próprio João Paulo II quem o encomendou ao então Cardeal Ratzinger.
O Papa Bento XVI apresentou esse trabalho quando centenas de milhões de pessoas, católicas e não-católicas, sentem o agravamento da crise geral e voltam seus olhos esperançosos para a Barca de Pedro, à procura de algo firme em que se agarrar.
Ninguém ama o que não conhece. A Igreja colocou, assim, um esplêndido manual de educação religiosa ao alcance das almas ávidas de fé.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Em Jesus encontramos a solução

Eis que estarei convosco todos os dias até o fim dos séculos” (Mt 28,20). Solene compromisso, penhor divino, últimas palavras ditas por Jesus nesta terra, no exato momento em que estava para iniciar sua ascensão ao Céu. Sinal de sua inesgotável bondade e de seu desejo de permanecer conosco.
Já antes havia Ele prometido: “Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles” (Mt 18, 20). No entanto, há um modo mais esplêndido e palpável de sua permanência conosco: pela infalibilidade pontifícia. Cada vez que o Papa se pronuncia de maneira infalível, podemos estar certos de que é o próprio Jesus que nos fala por meio de seu Vigário na terra. Devemos aderir a essas definições de modo dócil, ardoroso e constante, pois é através da infalibilidade pontifícia que temos entre nós a presença de Jesus Verdade.
Outra presença de Jesus se manifesta através das almas que o Espírito Santo conserva em sua graça. Variam as épocas, mudam-se os costumes, impérios são arrasados, a ciência progride, mas subsiste sempre um pugilo de homens e mulheres de alta virtude, um Agostinho ou uma Clara de Assis, um Inácio de Loyola ou uma Maria Goretti, uma Teresa de Ávila ou um Pio de Pietrelcina, nos quais podemos contemplar nosso Salvador. É Jesus Santidade, que transparece em todos os tempos, algo indispensável até mesmo para a continuidade da Igreja.
Contudo, nada pode superar a presença real no Santíssimo Sacramento, Jesus Eucaristia – Jesus Totalidade, em corpo, sangue, alma e divindade, presença substancial, se bem que sob as aparências de pão e de vinho. Era a essa presença que Ele mais especificamente se referira quando disse que permaneceria conosco.
Talvez nos sintamos oprimidos diante da enormidade dos problemas que afligem nossos dias. Ora, encontrar solução para eles é muito menos difícil do que podemos imaginar. Basta procurarmos aquele mesmo Jesus que trilhou os caminhos da Terra Santa, curando, perdoando, ressuscitando e salvando, e que hoje, por infinito amor a nós, se encontra à nossa espera sob o véu do Pão dos Anjos.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Por fim meu Imaculado Coração Triunfará

Era noite, a ordem do universo havia sido abalada no seu cerne mais íntimo, até as areias dos oceanos e dos astros sofriam as conseqüências do grande crime do deicídio iniciado no Horto das Oliveiras e consumado no Calvário. No sepulcro jazia um Corpo dilacerado pela ação dos flagelos da impiedade, tendo sua cabeça perfurada por espinhos e o costado por uma lança. No lado externo encontram-se vigias mercenários a fim de evitar o roubo daqueles restos mortais. Essa era a grande tensão que os afligia, e sua desconfiança se concentrava em qualquer movimento ou ruído pelas redondezas. Incrédulos, não penetravam nos mistérios daquela segunda noite de trabalho.
A boa distância dali, dormiam os discípulos o sono leve e assustadiço dos apavorados. Sentiam o peso das ameaças, da perseguição e da própria consciência. Tudo parecia perdido e nenhuma fímbria de esperança se fazia sentir no horizonte carregado de maus pressentimentos. O Mestre fizera um número incontável de milagres e chegara até mesmo a ressuscitar mortos, mas como poderia Ele ressuscitar a Si próprio, estando inerte a sua capacidade de ação? Importava sobremaneira que as portas e janelas estivessem bem trancadas, pois a qualquer momento poderiam, também eles, serem alvo de investida dos mesmos agressores...
As almas mais fervorosas, como Maria Madalena e as Santas Mulheres, ansiavam por conferir àquele Corpo todo o calor da devoção que lhes transbordava dos corações. Tinham toda razão, pois, sem nunca terem ouvido uma aula de Teologia, guardavam um culto de latria por aquele defunto e, realmente, apesar de Corpo e Alma estarem separados pela morte, ambos se encontravam unidos a Deus pelos fortíssimos laços da União Hipostática e, portanto, seu cadáver bem merecia ser adorado.
Os objetivos de cada conjunto eram bem distintos. Um só ponto lhes era comum: a ninguém ocorria a idéia de uma auto-ressurreição. Apenas uma entre todos aguardava o grande momento, com fé insuperável: Maria, Mãe de Jesus.
A certa altura da madrugada do terceiro dia, eis que a lápide sofre um grande golpe e salta longe, os guardas desmaiam e, refulgente como um sol, em toda a sua glória, ressurge o Mestre dando início a uma nova era histórica...
* * *
Percorrendo este mundo afora, em especial a própria e tão querida Europa constata-se uma enorme crise de espiritualidade. Deus deixou de ser o centro das preocupações, como fora outrora, e o materialismo substituiu, a passos apressados, a verdadeira religião. Uma dramática situação pois, segundo uma declaração de Bento XVI, na época Cardeal Ratzinger, a Europa “parece ter-se esvaziado em seu interior, paralisada, em certo sentido, pela crise de seu sistema circulatório”. Dizia ainda mais: “Impõe-se uma comparação com o Império Romano em decadência: ele ainda funcionava como um grande arcabouço histórico, mas na realidade vivia já daqueles que deviam dissolvê-lo, pois nele próprio já não restava nenhuma energia vital” (Conferência no Senado italiano, 13/6/2004).
Porém, não será essa a situação dos cinco continentes, com estes ou aqueles conformes? De fato, o mundo caminha para uma terrível ruína, em todos os campos: social, econômico, religioso, ecológico, moral, etc. Serão nossos horizontes, hoje, menos carregados que os dos Apóstolos naquela trágica noite? E nosso sono mais tranqüilo? São menores as ameaças que nos cercam e mais leves nossas consciências?
Eis a necessidade de nos unirmos à Fé de Maria Santíssima nesta terrível hora de apreensão e com Ela crermos numa nova ressurreição: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O resto vos será dado por acréscimo

Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol? Uma geração passa, outra vem; mas a terra sempre subsiste. O sol se levanta, o sol se põe; apressa-se a voltar a seu lugar; em seguida, se levanta de novo. O vento vai em direção ao sul, vai em direção ao norte, volteia e gira nos mesmos circuitos. Todos os rios se dirigem para o mar, e o mar não transborda. Em direção ao mar, para onde correm os rios, eles continuam a correr. Todas as coisas se afadigam, mais do que se pode dizer. A vista não se farta de ver, o ouvido nunca se sacia de ouvir. O que foi é o que será: o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol (Ecl. 1, 3-9).
Dura é a cerviz do homem quando se trata de admitir essa lei da História, tão claramente enunciada pelo escritor sagrado. Analisada pelo prisma meramente teórico, tal vez ninguém se levante contra a evidência dessas afirmações da Escritura; contudo, na prática, toda a humanidade delas se esquece.
Neste terceiro milênio da Era Cristã, quão vantajoso seria, para nosso presente e futuro, viver o sábio conselho do Eclesiastes: “Vaidade das vaidades...” A experiência de nossos antepassados, com seus sucessos e fracassos, deveria ser suficiente para nos ajudar a encontrar a verdadeira felicidade. Uma expressão francesa, “tudo passa, tudo se quebra, tudo se desgasta, e tudo se substitui”, exprime de modo inteligente e sintético o mesmo vazio das coisas deste mundo, e a frustração de todos aqueles que puseram apenas nelas a sua alegria. É dessa fatuidade que advêm as guerras, inseguranças, rixas, infortúnios, malogros, desânimos e, às vezes, o próprio desespero.
Mas onde procurar a felicidade, pela qual todo homem anseia? Nos exemplos e lições do Divino Mestre, deixados no Evangelho, cujo cerne se lê em São Lucas: “Buscai, pois, o reino de Deus e sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo!”

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

“Sede prudentes como as serpentes” (Mt 10, 16)

Desejar “ser como Deus” (cf. Gn 3, 5)! Foi este o ato de soberba que feriu logo de início a harmonia da obra da criação.
Os anjos rebeldes e nossos primeiros pais “desejaram de modo desordenado a semelhança com Deus” — explica São Tomás. “Ambos [o demônio e o homem] confiaram em suas próprias forças, desprezando a ordem da lei divina” (Suma Teológica, II – II, 163, 2).
Mas não desejaria a infinita Bondade permitir que todo o gênero humano se perdesse eternamente “pela desobediência de um só” (Rm 5, 19).
Por isso, o Ofendido, o Pai onipotente, santo e eterno, “enviou seu Filho como vítima de expiação” (1 Jo 4, 10) para salvar os homens atingidos pela lepra e maldição do pecado. E — ó mistério de amor! — o Verbo eterno se fez carne e humilhou-se até a morte, para tornar “participantes da natureza divina” (2 Pd 1, 4) os que por orgulho haviam querido “ser como Deus”. “O Filho de Deus se fez homem para nos fazer Deus!” — exclama Santo Atanásio.
“Ser como Deus” após a Redenção, pelos méritos infinitos do sacrifício do Calvário, passou a ser o convite sobrenatural para todo homem. “Ser como Deus” pela graça santificante, recebida por meio dos sacramentos, nos confere uma participação física e formal da própria natureza divina, e assim nos torna capazes de praticar estavelmente os ensinamentos do Divino Mestre. Entre estes se encontra o conselho de ser prudente.
Para muitos esta virtude será sinônimo de timidez e falta de ousadia e, por consequência, quem a praticar só poderá colher fracassos na vida. Em contrapartida, com razão já diziam os antigos romanos: audaces, fortuna iuvat. A fortuna só ajuda aos audazes... Por outro lado, alguns confundirão esta virtude com a dissimulação e falsidade ou, quiçá, considerá-la-ão como um título útil para encobrir o medo ou a covardia.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Saudade e assunção

No Céu, em meio à felicidade suprema, aguardam todas as almas fiéis e amantes de Deus, o grande dia da Ressurreição, a fim de recuperarem seus corpos, dos quais a morte as separou como um dos trágicos efeitos do Pecado Original. O próprio Jesus quis passar por esse transe, a fim de realizar a Redenção através do sofrimento perfeito.
Maria Santíssima, por ser Co-redentora, teria experimentado as dores do falecimento? A esse respeito assim se expressou o nosso saudoso Papa, João Paulo II: “Esse final da vida que para todos os homens é a morte, no caso de Maria, a Tradição mais bem o chama de Dormição” (Homilia de 15/8/1979, em Castelgandolfo).
Morte ou Dormição, a Santíssima Virgem terá passado para a eternidade com santa sofreguidão, em busca de seu Divino Filho, pois ambos haviam vivido na mais perfeita harmonia e relacionamento familiar ao longo de trinta anos, nesta terra. Compreenderemos melhor a força da união estabelecida entre ambos, ao longo daquelas três décadas de vida oculta, quando a Providência nos fizer conhecer os mistérios da pequena — e quão grande! — história do dia-a-dia da Sagrada Família. Um único episódio nos permite fazer uma pálida idéia sobre o universo de amor havido entre Eles, inclusive com São José: a Perda e o Encontro. O entranhamento de mútua compreensão e benquerença era tal, que Maria ficou perplexa diante daquela atitude praticada por um Menino tão afetuoso, reto e submisso.
Sim, Eles três na intimidade se admiravam mutuamente, transcendendo os aspectos comuns e correntes da existência de todos os dias, à espera da plenitude perpétua da caridade. Nazaré, nas vinte e quatro horas, comportava o sono, trabalho e demais ocupações que conduziam a uma forçosa e ao mesmo tempo dolorosa separação. Acrescentemos os quinze anos de exílio nos quais viveu Nossa Senhora nesta terra, depois de ter visto seu Filho desaparecer entre as nuvens da Ascensão.
Foi a saudade desse convívio e o ardor de o reaver na totalidade de sua intensidade e perfeição, que levou Maria a subir ao Céu de corpo e alma.
“Com a Assunção da Virgem Maria começou a glorificação de toda a Igreja de Cristo, que terá seu cumprimento no dia final da História” (João Paulo II, Ângelus 21/8/1983), no qual todos os justos, de corpoe alma, viverão com a Sagrada Família no Céu.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Os planos de Deus

As leis do espírito são muitas vezes contrárias às da matéria. Assim, à medida que o homem come, seu apetite diminui; após uma boa refeição, ele se sente satisfeito. Na ordem sobrenatural, acontece exatamente o oposto: quanto mais a alma se alimenta dos bens espirituais, mais aumenta sua apetência, a qual só será saciada quando atingir o infinito, ou seja, o próprio Deus, para O qual foi criada.
No que diz respeito à propriedade ou ao uso de qualquer bem terreno, pode-se observar um caso semelhante. Quanto mais bens possuir um indivíduo, um grupo ou uma nação, menos restará para os demais. E o alimento consumido por um, a ninguém mais aproveita. No mundo do espírito, entretanto, dá-se o inverso: pela comunhão dos santos, quanto mais uma alma acumula graças, maior é a participação e o benefício de todas as outras.
Também no campo das funções e das hierarquias nesta vida, os julgamentos humanos e os divinos podem não ser os mesmos. Por exemplo, um simples irmão leigo, iletrado, faxineiro do convento, comparado a um monge do mesmo mosteiro, teólogo eminente. Nesta terra, este último gozará de merecida reputação, por sua vasta cultura, enquanto o irmão leigo será, talvez, tratado de uma forma comum. Passando para a vida eterna, porém, pode muito bem acontecer de o teólogo, com surpresa, ver no Céu o irmão faxineiro ocupando um trono muito superior ao seu...
Algo de análogo pode ocorrer com os povos e as nações nesta terra, pois não são destinados a permanecerem, enquanto tais, após o Juízo Final.
Não é raro, na História, depararmo-nos com um povo relegado a uma posição apagada na ordem internacional que, movido por fatores diversos, cresce, expande-se e, numa curva inesperada dos acontecimentos, eleva- se ao pódio da glória, deixando pasmos incontáveis historiadores incapazes de compreender tal sucesso. Assim, por exemplo, era impensável que dos bárbaros invasores do Império Romano surgisse a Europa.

sábado, 16 de julho de 2011

QUAL O TIPO DE SANTIDADE IDEAL PARA O HOMEM DE HOJE?

Ensina-nos São Tomás que, sendo Deus infinito, não poderia refletir-se numa só criatura, mas sim numa multiplicidade delas,e por isso criou Ele o Universo.
É através das coisas visíveis que o homem se eleva até as invisíveis. Por exemplo, contemplando uma simples concha de mar, podemos compreender o quanto Deus é, por assim dizer, afetuoso para conosco, pois, se para um molusco oferece Ele um tal “palácio” de madrepérola, qual não será a maravilha preparada para cada um de nós na mansão celeste?
São Paulo afirma com clareza essa verdade, em sua carta aos Romanos: “Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornaram visíveis à inteligência, por suas obras”(1, 20).
Ora, essa realidade é ainda mais rica na ordem sobrenatural. Os seres que nos fazem conceber uma idéia mais próxima de quem é Deus, são os Santos. E o grande número destes demonstra o quanto quer Ele ser conhecido através de seus eleitos. Esta é também a razão da existência da rica variedade de feitios de santidade; para o homem há modelos em profusão, constituindo todos, no seu conjunto, um verdadeiro universo.
Em cada fase da História, a Divina Providência suscita uma plêiade de Santos, não só para se tornar mais acessível à humanidade, como também com a finalidade de contrapor-se aos erros e desvios morais de sua época.
Nesta perspectiva, melhor se entendem os Santos das Ordens mendicantes nascidas na Idade Média, como um São Francisco de Assis ou um São Domingos de Gusmão. Apresentando um tipo humano bem definido, surgiram eles, em meio aos esplendores de uma sociedade que intuía não estar longe de conquistar o mundo, para pregar o quanto os bens materiais são simples meios para realizarmos nossa vocação de cristãos e jamais o nosso fim último.
Com efeito, percorrendo os séculos do Cristianismo — e até mesmo os do Antigo Testamento — encontraremos um belíssimo caleidoscópio de feitios de santidade, cada um convidando ao equilíbrio e à perfeição nas relações dos homens entre si e com Deus, próprios a refrear e corrigir os perigos e inclinações de seu tempo.
Hoje atravessamos dramas, riscos e ameaças antes sequer concebidos, e, ao mesmo tempo, desfrutamos de um desenvolvimento tecnológico inimaginável em épocas anteriores. O homem dispõe atualmente de recursos que teriam enlouquecido de euforia os construtores da famosa Torre de Babel. Mas, pari passu, vai ele perdendo a noção do Belo, do Bom e do Verdadeiro.
E surge, então, uma pergunta: qual é o tipo de santidade ideal para os dias presentes?
Para respondê-la, analisemos os anseios e sonhos da hodierna e sadia juventude, a sociedade de amanhã. Assim poderemos conhecer o que nos prepara Deus, como resposta da santidade e como via de perfeição, para contrabalançar os delírios e carências morais deste terceiro milênio.

terça-feira, 5 de julho de 2011

A Teocracia ao longo da história

Na Antiguidade, muitos povos atribuíam qualidades divinas a seus governantes, talvez por uma noção imprecisa de que a autoridade vem do Alto (cfr. Jo 19, 11). Os romanos, por exemplo, adoravam os imperadores, o que não os impedia de assassiná-los quando se cansavam de suas crueldades... Mas, na realidade, a História só conheceu um povo que foi governado diretamente por Deus: Israel. Era uma teocracia na sua forma mais pura. Nenhuma outra nação teve semelhante privilégio, nem houve sistema de governo mais perfeito do que esse: o Decálogo permanece pelos séculos afora como exemplo da simplicidade, eficácia e beleza da legislação divina.
Apesar dessa superioridade, o povo exigiu de Deus que lhe desse um monarca, à semelhança das outras nações. Deus atendeu seu pedido e entregou o cetro a Saul, pondo fim à teocracia em Israel.
Com a fundação da Igreja, povo eleito do Novo Testamento, o Filho de Deus escolheu Pedro e seus sucessores para governá-la. Prometeu enviar o Espírito Consolador, deu-lhes o dom de infalibilidade e o poder das chaves (cf. Mt 16, 19). Assim, o sucessor de Pedro permanece como perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade da Igreja, com poder pleno, supremo e universal.
Do tempo em que São Pedro regia a Igreja nascente, sentado em sua singela cátedra, até nossos dias, a complexidade do governo cresceu quase ao infinito. Inspirados pelo Espírito Santo, os Papas souberam adaptar-se às novas circunstâncias, criando ao longo dos séculos os vários organismos da Cúria Romana para os auxiliarem no pastoreio do povo de Deus.
Algumas das atuais congregações romanas devem sua remota origem à construção da atual Basílica de São Pedro, que recentemente comemorou seus 500 anos de existência. Visando levar adiante tão monumental empreendimento, os Papas instituíram a Fábrica de São Pedro, comissão composta por cardeais que se reuniam regularmente para resolver os problemas atinentes à construção. E ficou o costume de se congregarem os cardeais para deliberar sobre os assuntos a eles confiados pelo Papa.
Um dos mais antigos dicastérios da Cúria Romana é a Secretaria de Estado, que remonta aos finais do séc. XV, quando foi instituída a Secretaria Apostólica, destinada a coadjuvar de perto o Sumo Pontífice. Com a descoberta do Novo Mundo, nasceu a necessidade de impulsionar as missões, tendo sido criada a Congregação de Propaganda Fide, hoje Congregação para a Evangelização dos Povos. Após o Concílio de Trento, a fim de interpretar e aplicar as reformas conciliares, foi criada a Sacra Congregatio Cardinalium Concilii Tridentini interpretum, à qual S.S. Paulo VI, em 1967, deu a denominação de Congregação para o Clero.
Deveu-se ao Papa Sisto V, em 1587, a iniciativa da organização da Cúria tal como a conhecemos hoje, dividida em Congregações Romanas, com o que a eficácia da ação pastoral dos Papas se viu muito beneficiada.
Porém, por mais engenhosos que sejam os métodos de organização do governo da Igreja, nunca devemos esquecer, como nos ensina admiravelmente o Concílio Vaticano II, que o Espírito Santo é quem dota, dirige e embeleza a Igreja, mediante os diversos dons hierárquicos e carismáticos (LG n. 4).

sábado, 21 de maio de 2011

A importância da família

Como são amáveis as vossas moradas, Senhor!” (Sl 83, 2).
Entre as múltiplas crises pelas quais atravessa o mundo de hoje, uma das mais graves e de conseqüências mais profundas é a da família. É tão desoladora sua situação que não poucos a imaginam à beira da completa extinção. Ora, esse desfecho é impossível, pois ela é uma instituição divina, como mostra uma das bênçãos do Ritual do Matrimônio: “Ó Deus, Vós unis a mulher ao marido e dais a essa união, estabelecida desde o início, a única bênção que não foi abolida, nem pelo castigo do pecado original, nem pela condenação do dilúvio”. Sobretudo, foi elevada à condição de sacramento pelo Homem-Deus.
Não se pode negar que a santidade e a própria estabilidade da família encontram-se gravemente ameaçadas; e os Papas não cessam de alertar sobre este grande mal: a desagregação familiar. Economizemos tempo e espaço, deixando de lado outros aspectos do problema, e concentremos nossa atenção nas suas causas.
Essas, aliás, podem se reduzir a uma só: o fato de se querer expulsar Cristo da sociedade. As outras causas são apenas uma inevitável decorrência desta. Laicismo, materialismo, consumismo, divórcio, uniões ilegítimas, etc., são filhas e netas do retorno à terra daquele brado deicida de outrora: “Crucifica-O, crucifica-O!”
Se as famílias resolverem retomar o princípio de seu caráter sacral e, portanto, cristão, a face da terra será renovada, pois o lar deve ser, antes de tudo, um Tabernáculo do Senhor. Essa concepção religiosa nasce da própria essência e natureza do casamento. Nem sequer os pagãos fugiram dessa visualização, tanto que cultuavam dois deuses protetores do lar e lhes ofereciam sacrifícios.
Para os cristãos, a habitação familiar é um templo onde se encontram oração, pregação e sacrifício. A bênção dos alimentos, a ação de graças, a recitação coletiva do rosário e outras práticas de piedade, a Páscoa e o Natal em comum, etc., constituem a oração na Igreja doméstica.
São João Crisóstomo recomendava vivamente aos pais de família, em Constantinopla e Antioquia, a converterem suas casas em verdadeiros templos. Deviam repetir ali o que haviam aprendido na Igreja. Santo Agostinho ainda ia mais longe, atribuindo-lhes funções episcopais, enquanto responsáveis por transmitir a verdadeira doutrina dentro de casa.
Porém, a mais eficaz pregação é feita através do exemplo. Se o ambiente doméstico é um templo do Senhor, além de oração e pregação, ele exige sacrifício; deve-se nele oferecer uma vítima: “Rogo-vos, pois, irmãos, pela misericórdia de Deus, que ofereçais os vossos corpos como uma hóstia viva, santa, agradável a Deus” (Rm 12, 1).
Não se pode construir uma nova era com famílias desagregadas. Somente com lares bem constituídos e piedosos teremos uma sociedade robusta e sadia. Nenhuma outra época precisou tanto de famílias que dêem à sociedade bons cidadãos, autênticas pilastras e muralhas para a salvação e segurança do bom relacionamento humano. Esse nobre e indispensável objetivo só será alcançado pela restauração dessa célula-mater da civilização, segundo o espírito, a moral e a doutrina da Santa Igreja.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Dor e sofrimento

Como se sabe, dos três videntes, dois morreram pouco depois das aparições, conforme a promessa da Santíssima Virgem: Francisco e Jacinta. Ambos deviam ir para o Céu. Antes disso, porém, haveriam de cumprir nesta Terra duas missões diferentes. A de Jacinta era rezar e sofrer pela conversão dos pecadores, enquanto a de Francisco consistia numa reparação ante a tristeza de Nosso Senhor e de Nossa Senhora pelos pecados do mundo, que tinham motivado a mensagem de Fátima.
A importância do sofrimento humano nas grandes obras de Deus
A missão de Jacinta nos revela a necessidade de vítimas expiatórias que contribuíssem com a sua dor e o sacrifício de sua vida — as duas crianças morreram em circunstâncias extraordinariamente difíceis e dolorosas — para que as palavras de Nossa Senhora encontrassem terreno fértil nos corações dos homens, dando todos os frutos por Ela desejados.
Compreende-se, pois, como esse apostolado do sofrimento é verdadeiramente insubstituível, e como abre os caminhos para a Igreja. Todas as grandes obras de Deus, máxime as que tratam da salvação das almas, em geral se fazem com a participação de outras almas que lutaram, sofreram e rezaram para que essas obras de fato se realizassem.
Sempre é preciso a participação do sofrimento humano. Sem ele, nada de grande se faz.
Certa vez, um talentoso pintor expôs um de seus quadros que retratava Nosso Senhor como Bom Pastor batendo à porta de uma choupana. A pintura, tocante e piedosa, atraía muitas atenções. Em determinado momento, um visitante julgou notar um defeito no quadro, e disse ao artista: “O senhor cometeu um erro de execução, pois a porta dessa cabana não tem fechadura”. Sorrindo, o pintor lhe respondeu: “É verdade. Isto, porém, não foi um erro. Esta porta simboliza a porta do coração humano, onde Nosso Senhor bate à porta do coração humano, Nosso Senhor vem bater. Ela não possui fechadura no lado de fora, mas somente no de dentro, para significar que há certos tipos de abertura de alma onde ninguém consegue intervir: ou a alma toma a iniciativa de se abrir, ou permanecerá fechada”.
Ora, o modo de se obter que as almas fechadas se abram é exatamente por meio da oração, dos sacrifícios e das dores que a Providência dispõe em nossas vidas. É por meio do carregar amorosamente a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, compreendendo que assim se cumpre a superior vontade divina. Essas são as almas decisivas na História, e que levam a cabo as grandes obras de Deus.
Claro está que não se trata de um sofrer meramente passivo, mas também de um sofrer ativo. O que significa muitas vezes tomar a iniciativa da luta, rompendo com aqueles que prejudicam nossa alma. Significa arrostar a opinião dos outros, aceitando ser posto em situações difíceis e contrafeitas. Significa, enfim, todo o sofrimento da batalha mais intrépida, mais ousada e mais repleta de determinação. Tudo isso é sofrer, e até sofrer por excelência.
O contrário do mito do ‘final feliz’
Não nos esqueçamos, porém, de que, se todas as formas de sacrifícios são agradáveis a Nossa Senhora, o que mais deseja Ela receber dos homens é virtude. Acima dos sofrimentos, Lhe compraz oferecermos a Ela a retidão e a pureza de nossa alma. Se quisermos de fato pesar nas deliberações da Providência, devemos apresentar a Ela almas contritas e humilhadas, almas que se tornem pequenas diante de Deus, renunciando a toda forma de orgulho, vanglória e vaidade, para se mostrarem diante d’Ele como realmente são. Reconhecendo a sua própria impotência, pelas vias naturais, para corrigir os seus defeitos; e, portanto, implorando o auxílio de Maria, para que Ela por nós interceda e nos alcance a tão esperada conversão.
E isto exatamente nos é dito pelo sacrifício de Jacinta. Devemos, portanto, pedir a ela que nos obtenha de Nossa Senhora esse senso de sofrimento, indispensável para que qualquer católico seja verdadeiramente um fiel generoso e dedicado.
Essa aceitação da cruz é contrária ao mito do homem moderno, que se reflete na mentalidade do ‘final feliz’, segundo a qual tudo é alegria, tudo é luz, e o padecimento é uma espécie de bicho de sete cabeças irrompendo estouvadamente na vida das pessoas.
A verdade é outra: uma existência sem cruzes, pouco vale. São Luís Grignion de Montfort chega mesmo a afirmar que, vendo-se alguém poupado pelos sofrimentos, deve — após judiciosa orientação de seu diretor espiritual – pedi-los a Deus, fazer romarias e rezar com empenho nessa intenção, pois sua salvação eterna pode estar correndo um risco não pequeno.

Mais do que nunca, a necessidade de sacrifícios
 Análogas considerações poderiam ser feitas a propósito da missão de Francisco, isto é, a de reparar os Sacratíssimos Corações de Jesus e de Maria pelos pecados e ofensas contra Eles cometidos na face da Terra.
Ora, de 1917 até nossos dias, a maré montante dos pecados não fez senão crescer de modo incomensurável: pecados individuais, pecados públicos, pecados das nações, pecados das instituições, etc.
Tal constatação nos obriga a concluir que, se a ofensa cresceu, a reparação também se faz mais necessária e mais intensa no que ela tem de mais excelente, ou seja, alimentar em nossas almas a indignação pelos ultrajes que são feitos ao Coração Imaculado de Maria; acrisolar nosso desejo de sermos instrumentos de Nossa Senhora para a implantação de seu Reino sobre a Terra.
Devemos pedir ao Francisco que nos obtenha esse espírito, esse ardoroso anelo de assim reparar o Coração Imaculado de Maria e, por meio d’Ele, o Coração Sagrado de Jesus