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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Em Jesus encontramos a solução

Eis que estarei convosco todos os dias até o fim dos séculos” (Mt 28,20). Solene compromisso, penhor divino, últimas palavras ditas por Jesus nesta terra, no exato momento em que estava para iniciar sua ascensão ao Céu. Sinal de sua inesgotável bondade e de seu desejo de permanecer conosco.
Já antes havia Ele prometido: “Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles” (Mt 18, 20). No entanto, há um modo mais esplêndido e palpável de sua permanência conosco: pela infalibilidade pontifícia. Cada vez que o Papa se pronuncia de maneira infalível, podemos estar certos de que é o próprio Jesus que nos fala por meio de seu Vigário na terra. Devemos aderir a essas definições de modo dócil, ardoroso e constante, pois é através da infalibilidade pontifícia que temos entre nós a presença de Jesus Verdade.
Outra presença de Jesus se manifesta através das almas que o Espírito Santo conserva em sua graça. Variam as épocas, mudam-se os costumes, impérios são arrasados, a ciência progride, mas subsiste sempre um pugilo de homens e mulheres de alta virtude, um Agostinho ou uma Clara de Assis, um Inácio de Loyola ou uma Maria Goretti, uma Teresa de Ávila ou um Pio de Pietrelcina, nos quais podemos contemplar nosso Salvador. É Jesus Santidade, que transparece em todos os tempos, algo indispensável até mesmo para a continuidade da Igreja.
Contudo, nada pode superar a presença real no Santíssimo Sacramento, Jesus Eucaristia – Jesus Totalidade, em corpo, sangue, alma e divindade, presença substancial, se bem que sob as aparências de pão e de vinho. Era a essa presença que Ele mais especificamente se referira quando disse que permaneceria conosco.
Talvez nos sintamos oprimidos diante da enormidade dos problemas que afligem nossos dias. Ora, encontrar solução para eles é muito menos difícil do que podemos imaginar. Basta procurarmos aquele mesmo Jesus que trilhou os caminhos da Terra Santa, curando, perdoando, ressuscitando e salvando, e que hoje, por infinito amor a nós, se encontra à nossa espera sob o véu do Pão dos Anjos.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Por fim meu Imaculado Coração Triunfará

Era noite, a ordem do universo havia sido abalada no seu cerne mais íntimo, até as areias dos oceanos e dos astros sofriam as conseqüências do grande crime do deicídio iniciado no Horto das Oliveiras e consumado no Calvário. No sepulcro jazia um Corpo dilacerado pela ação dos flagelos da impiedade, tendo sua cabeça perfurada por espinhos e o costado por uma lança. No lado externo encontram-se vigias mercenários a fim de evitar o roubo daqueles restos mortais. Essa era a grande tensão que os afligia, e sua desconfiança se concentrava em qualquer movimento ou ruído pelas redondezas. Incrédulos, não penetravam nos mistérios daquela segunda noite de trabalho.
A boa distância dali, dormiam os discípulos o sono leve e assustadiço dos apavorados. Sentiam o peso das ameaças, da perseguição e da própria consciência. Tudo parecia perdido e nenhuma fímbria de esperança se fazia sentir no horizonte carregado de maus pressentimentos. O Mestre fizera um número incontável de milagres e chegara até mesmo a ressuscitar mortos, mas como poderia Ele ressuscitar a Si próprio, estando inerte a sua capacidade de ação? Importava sobremaneira que as portas e janelas estivessem bem trancadas, pois a qualquer momento poderiam, também eles, serem alvo de investida dos mesmos agressores...
As almas mais fervorosas, como Maria Madalena e as Santas Mulheres, ansiavam por conferir àquele Corpo todo o calor da devoção que lhes transbordava dos corações. Tinham toda razão, pois, sem nunca terem ouvido uma aula de Teologia, guardavam um culto de latria por aquele defunto e, realmente, apesar de Corpo e Alma estarem separados pela morte, ambos se encontravam unidos a Deus pelos fortíssimos laços da União Hipostática e, portanto, seu cadáver bem merecia ser adorado.
Os objetivos de cada conjunto eram bem distintos. Um só ponto lhes era comum: a ninguém ocorria a idéia de uma auto-ressurreição. Apenas uma entre todos aguardava o grande momento, com fé insuperável: Maria, Mãe de Jesus.
A certa altura da madrugada do terceiro dia, eis que a lápide sofre um grande golpe e salta longe, os guardas desmaiam e, refulgente como um sol, em toda a sua glória, ressurge o Mestre dando início a uma nova era histórica...
* * *
Percorrendo este mundo afora, em especial a própria e tão querida Europa constata-se uma enorme crise de espiritualidade. Deus deixou de ser o centro das preocupações, como fora outrora, e o materialismo substituiu, a passos apressados, a verdadeira religião. Uma dramática situação pois, segundo uma declaração de Bento XVI, na época Cardeal Ratzinger, a Europa “parece ter-se esvaziado em seu interior, paralisada, em certo sentido, pela crise de seu sistema circulatório”. Dizia ainda mais: “Impõe-se uma comparação com o Império Romano em decadência: ele ainda funcionava como um grande arcabouço histórico, mas na realidade vivia já daqueles que deviam dissolvê-lo, pois nele próprio já não restava nenhuma energia vital” (Conferência no Senado italiano, 13/6/2004).
Porém, não será essa a situação dos cinco continentes, com estes ou aqueles conformes? De fato, o mundo caminha para uma terrível ruína, em todos os campos: social, econômico, religioso, ecológico, moral, etc. Serão nossos horizontes, hoje, menos carregados que os dos Apóstolos naquela trágica noite? E nosso sono mais tranqüilo? São menores as ameaças que nos cercam e mais leves nossas consciências?
Eis a necessidade de nos unirmos à Fé de Maria Santíssima nesta terrível hora de apreensão e com Ela crermos numa nova ressurreição: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O resto vos será dado por acréscimo

Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol? Uma geração passa, outra vem; mas a terra sempre subsiste. O sol se levanta, o sol se põe; apressa-se a voltar a seu lugar; em seguida, se levanta de novo. O vento vai em direção ao sul, vai em direção ao norte, volteia e gira nos mesmos circuitos. Todos os rios se dirigem para o mar, e o mar não transborda. Em direção ao mar, para onde correm os rios, eles continuam a correr. Todas as coisas se afadigam, mais do que se pode dizer. A vista não se farta de ver, o ouvido nunca se sacia de ouvir. O que foi é o que será: o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol (Ecl. 1, 3-9).
Dura é a cerviz do homem quando se trata de admitir essa lei da História, tão claramente enunciada pelo escritor sagrado. Analisada pelo prisma meramente teórico, tal vez ninguém se levante contra a evidência dessas afirmações da Escritura; contudo, na prática, toda a humanidade delas se esquece.
Neste terceiro milênio da Era Cristã, quão vantajoso seria, para nosso presente e futuro, viver o sábio conselho do Eclesiastes: “Vaidade das vaidades...” A experiência de nossos antepassados, com seus sucessos e fracassos, deveria ser suficiente para nos ajudar a encontrar a verdadeira felicidade. Uma expressão francesa, “tudo passa, tudo se quebra, tudo se desgasta, e tudo se substitui”, exprime de modo inteligente e sintético o mesmo vazio das coisas deste mundo, e a frustração de todos aqueles que puseram apenas nelas a sua alegria. É dessa fatuidade que advêm as guerras, inseguranças, rixas, infortúnios, malogros, desânimos e, às vezes, o próprio desespero.
Mas onde procurar a felicidade, pela qual todo homem anseia? Nos exemplos e lições do Divino Mestre, deixados no Evangelho, cujo cerne se lê em São Lucas: “Buscai, pois, o reino de Deus e sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo!”

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A Igreja é imortal

Os anjos tecem hipóteses e fazem considerações sobre o futuro; os homens, em geral, também anseiam por saber como será o dia de amanhã. Para Deus, entretanto, não existem incógnitas. Nada acontece sem que Ele já soubesse desde toda a eternidade. Toda a História encontra-se diante d’Ele como perpétuo presente.
Por que Deus não nos revela em minúcias esse conhecimento exato do porvir?
Entre outras razões, para nos manter em estado de vigilância: “Quanto àquele dia ou hora, ninguém o sabe, nem os anjos do Céu, nem o Filho, somente o Pai. Estai alerta! Vigiai, porque não sabeis quando será o momento” (Mc 13, 32-33). Se o homem tivesse ciência do dia e hora da própria morte, por exemplo, correria grave risco de relaxar seu comportamento ao longo da existência, deixando para o último instante uma grande conversão... esperança muitas vezes ilusória, pois geralmente se cumpre o velho aforismo: Qualis vita, finis ita — como foi a vida, assim será a morte.
Ademais, o fato de o homem conhecer o futuro poderia ser considerado uma realização da mentira da serpente a Eva no Paraíso: “Sereis como deuses” (Gn 3, 5). Tal prerrogativa faria crescer irresistivelmente a inclinação da humanidade para estabelecer um governo independente do Criador.
Poderá alguém estar certo de não morrer este ano? Qual a previsão para minha família, meus negócios, minha saúde, ou mesmo minhas relações sociais? Haverá alguma nação ou povoque possa estar tranqüilo quanto à sua estabilidade? Ainda mais nesta era pervadida de ameaças e ações do terrorismo internacional — com bombas nucleares espalhadas por todo o orbe, e na qual Deus e a moral vão sendo cada vez mais ofendidos e desafiados —, com base em quais fatores pode-se prever seguramente o rumo do acontecer humano?
Porém, para o homem de Fé, há um farol que não se apaga: A Igreja é imortal. “As portas do inferno não prevalecerão contra Ela” (Mt 16, 18). Alicerçada nessa promessa do Divino Salvador, sejam quais forem os acontecimentos, Ela, não só jamais morrerá, mas produzirá novos e belos frutos até o fim do mundo.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

“Sede prudentes como as serpentes” (Mt 10, 16)

Desejar “ser como Deus” (cf. Gn 3, 5)! Foi este o ato de soberba que feriu logo de início a harmonia da obra da criação.
Os anjos rebeldes e nossos primeiros pais “desejaram de modo desordenado a semelhança com Deus” — explica São Tomás. “Ambos [o demônio e o homem] confiaram em suas próprias forças, desprezando a ordem da lei divina” (Suma Teológica, II – II, 163, 2).
Mas não desejaria a infinita Bondade permitir que todo o gênero humano se perdesse eternamente “pela desobediência de um só” (Rm 5, 19).
Por isso, o Ofendido, o Pai onipotente, santo e eterno, “enviou seu Filho como vítima de expiação” (1 Jo 4, 10) para salvar os homens atingidos pela lepra e maldição do pecado. E — ó mistério de amor! — o Verbo eterno se fez carne e humilhou-se até a morte, para tornar “participantes da natureza divina” (2 Pd 1, 4) os que por orgulho haviam querido “ser como Deus”. “O Filho de Deus se fez homem para nos fazer Deus!” — exclama Santo Atanásio.
“Ser como Deus” após a Redenção, pelos méritos infinitos do sacrifício do Calvário, passou a ser o convite sobrenatural para todo homem. “Ser como Deus” pela graça santificante, recebida por meio dos sacramentos, nos confere uma participação física e formal da própria natureza divina, e assim nos torna capazes de praticar estavelmente os ensinamentos do Divino Mestre. Entre estes se encontra o conselho de ser prudente.
Para muitos esta virtude será sinônimo de timidez e falta de ousadia e, por consequência, quem a praticar só poderá colher fracassos na vida. Em contrapartida, com razão já diziam os antigos romanos: audaces, fortuna iuvat. A fortuna só ajuda aos audazes... Por outro lado, alguns confundirão esta virtude com a dissimulação e falsidade ou, quiçá, considerá-la-ão como um título útil para encobrir o medo ou a covardia.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

A esmola e o belo

Com sabedoria afirma São João: “Se alguém que possua bens deste mundo vir o seu irmão em necessidade e lhe fechar seu coração, como estará nele o Amor de Deus?” (I Jo 3, 17). Não faz o Discípulo Amado senão eco aos ensinamentos do Mestre. Sim, dar esmola é um preceito, e não mero conselho, como encontramos clarissimamente exposto por Jesus, no Evangelho de São Mateus (25, 31-46). Ou seja, vai-se para o fogo eterno pelo fato de se negar o supérfluo a quem realmente necessite. Cada um de nós deve atender às próprias necessidades, assim como às daqueles que estão debaixo de nossa responsabilidade, segundo suas respectivas condições e categoria social. Feito isto, deverá ser retirado das sobras, para dar aos pobres.
Ora, se alguém padece extrema necessidade e não pode ser socorrido de nenhuma outra maneira, o ajudá-lo é um preceito obrigatório para nós. Em diferentes condições, a esmola deixa de ser preceito e tornas-e um conselho.
À primeira vista, pareceria ser a esmola corporal superior à espiritual. Antes de mais nada, porque o corpo tem necessidades mais prementes do que a alma. Por outro lado, ao pobre às vezes agrada mais o receber um auxílio material do que espiritual; e do próprio doador, com maior mérito para ele, parece exigir-se mais virtude na concessão de bens físicos.
Estes são precisamente os erros refutados por São Tomas de Aquino na Suma Teológica: “Agostinho, àquilo do Evangelho — Dá a quem te pede — diz: ‘Deves dar o que não prejudique nem a ti nem a outrem; e quando negares a quem te pede, deves revelar a justiça do teu ato, para não o despedires vazio; e às vezes darás melhor quando corrigires a quem te pede injustamente’. Ora, a correção é esmola espiritual, logo, as esmolas espirituais devem ser preferidas às corpóreas” (II-II, q 32, a 2).
Explica o Doutor Angélico que, absolutamente falando, “as esmolas espirituais têm preeminência por três razões. Primeiro, por ser mais nobre o seu dom, a saber, o espiritual que tem preeminência sobre o corpóreo (...). Segundo, por causa da natureza do ser ao qual socorremos, pois o espírito é mais nobre do que o corpo. Por onde, assim como devemos cuidar mais do nosso espírito do que do nosso corpo, o mesmo devemos fazer para com o próximo, a quem devemos amar como a nós mesmos. Terceiro, quanto aos atos mesmos pelos quais socorremos ao próximo, por serem os atos espirituais mais nobres que os corpóreos, os quais são, de certo modo, servis” (ibidem).
Portanto, oferecer a Verdade ou a Bondade é um preceito que também nos obriga, em face das almas desamparadas e prestes a entrarem na agonia espiritual por ausência do socorro da Palavra e do exemplo. Ora, ensina a Escolástica ser o Belo, o esplendor da Verdade, o esplendor da Bondade. Por isso, levar o Belo aos mais carentes é não só obra de misericórdia superior, mas até mesmo um preceito para todos os que possam fazê-lo.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Os planos de Deus

As leis do espírito são muitas vezes contrárias às da matéria. Assim, à medida que o homem come, seu apetite diminui; após uma boa refeição, ele se sente satisfeito. Na ordem sobrenatural, acontece exatamente o oposto: quanto mais a alma se alimenta dos bens espirituais, mais aumenta sua apetência, a qual só será saciada quando atingir o infinito, ou seja, o próprio Deus, para O qual foi criada.
No que diz respeito à propriedade ou ao uso de qualquer bem terreno, pode-se observar um caso semelhante. Quanto mais bens possuir um indivíduo, um grupo ou uma nação, menos restará para os demais. E o alimento consumido por um, a ninguém mais aproveita. No mundo do espírito, entretanto, dá-se o inverso: pela comunhão dos santos, quanto mais uma alma acumula graças, maior é a participação e o benefício de todas as outras.
Também no campo das funções e das hierarquias nesta vida, os julgamentos humanos e os divinos podem não ser os mesmos. Por exemplo, um simples irmão leigo, iletrado, faxineiro do convento, comparado a um monge do mesmo mosteiro, teólogo eminente. Nesta terra, este último gozará de merecida reputação, por sua vasta cultura, enquanto o irmão leigo será, talvez, tratado de uma forma comum. Passando para a vida eterna, porém, pode muito bem acontecer de o teólogo, com surpresa, ver no Céu o irmão faxineiro ocupando um trono muito superior ao seu...
Algo de análogo pode ocorrer com os povos e as nações nesta terra, pois não são destinados a permanecerem, enquanto tais, após o Juízo Final.
Não é raro, na História, depararmo-nos com um povo relegado a uma posição apagada na ordem internacional que, movido por fatores diversos, cresce, expande-se e, numa curva inesperada dos acontecimentos, eleva- se ao pódio da glória, deixando pasmos incontáveis historiadores incapazes de compreender tal sucesso. Assim, por exemplo, era impensável que dos bárbaros invasores do Império Romano surgisse a Europa.

terça-feira, 26 de julho de 2011

A excelência do sacerdócio

Ficarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20). Que extraordinária promessa nos fez o Senhor, pouco antes de subir ao Céu! Falava Ele com os Apóstolos e, embora tais palavras fossem dirigidas a todo o gênero humano, continham uma mensagem especial para eles.
Com efeito, Cristo nosso Senhor se faria presente entre nós de vários modos, mas particularmente na voz infalível do Papa, na distribuição dos Sacramentos e, em especial, na sua real presença na Sagrada Eucaristia. Ora, todas essas maneiras de presença estão vinculadas ao sacerdócio e são dele dependentes. Era natural, pois, que Jesus, ao instituir a Santa Igreja, a entregasse à direção de homens que deviam ser seus representantes e sucessores: “Sacerdos alter Christus”.
Seja no confessionário, no altar ou no púlpito, o sacerdote é outro Cristo, e está continuando a própria missão do Homem-Deus nesta terra, quer dizer, a de ensinar a verdade, a de santificar e a de conduzir os homens no caminho da salvação.
Quão enorme é o poder de perdoar os pecados! Maior até do que o de curar os paralíticos, conforme afirmou o próprio Jesus (Mt 9, 2-7). Esse poder, Ele o conferiu aos Apóstolos para que o perpetuassem na sua Igreja, ao soprar sobre eles e dizer: “Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (Jo 20, 22-23).
E o que dizer do poder de celebrar a Eucaristia, consagrando o pão e o vinho? Sobre a grandeza da Celebração Eucarística, os Doutores, os Padres da Igreja e os Papas nos deixaram belas e profundas reflexões, como esta, de João Paulo II: “Diante desta extraordinária realidade ficamos atônitos e abismados: como é grande a humildade condescendente com que Deus Se quis ligar ao homem! Se nos detemos comovidos diante do Presépio contemplando a Encarnação do Verbo, como exprimir o que se sente diante do altar onde, através das pobres mãos do sacerdote, Cristo torna presente no tempo o seu Sacrifício? Só nos resta ajoelhar e em silêncio adorar este mistério supremo da fé” (Carta aos Sacerdotes, Quinta-Feira Santa de 2004).
Entende-se melhor por que São Francisco de Assis osculava o lugar por onde havia passado um sacerdote e jamais aceitou ser ordenado presbítero, julgando-se indigno (por causa de sua extrema humildade, é claro) de ser elevado a esse extraordinário estado.
Não é, portanto, sem fundamento que, nas relações humanas, haja uma exigência quanto à transparência dos variados aspectos da divina figura de Jesus nos seus sacerdotes, como afirmava São Paulo: “É preciso que os homens vejam em nós ministros de Cristo e dispensadores dos mistérios de Deus” (1 Cor 4, 1).
Sobretudo no mais recôndito de sua alma, o padre é um outro Cristo, por ter recebido uma especial consagração, participativa daquela verificada na natureza humana de Nosso Senhor por sua união hipostática com o Verbo. Um só é o sacerdócio: o de Jesus Cristo, participado e continuado ao longo da História por seus sacerdotes.

sábado, 21 de maio de 2011

A importância da família

Como são amáveis as vossas moradas, Senhor!” (Sl 83, 2).
Entre as múltiplas crises pelas quais atravessa o mundo de hoje, uma das mais graves e de conseqüências mais profundas é a da família. É tão desoladora sua situação que não poucos a imaginam à beira da completa extinção. Ora, esse desfecho é impossível, pois ela é uma instituição divina, como mostra uma das bênçãos do Ritual do Matrimônio: “Ó Deus, Vós unis a mulher ao marido e dais a essa união, estabelecida desde o início, a única bênção que não foi abolida, nem pelo castigo do pecado original, nem pela condenação do dilúvio”. Sobretudo, foi elevada à condição de sacramento pelo Homem-Deus.
Não se pode negar que a santidade e a própria estabilidade da família encontram-se gravemente ameaçadas; e os Papas não cessam de alertar sobre este grande mal: a desagregação familiar. Economizemos tempo e espaço, deixando de lado outros aspectos do problema, e concentremos nossa atenção nas suas causas.
Essas, aliás, podem se reduzir a uma só: o fato de se querer expulsar Cristo da sociedade. As outras causas são apenas uma inevitável decorrência desta. Laicismo, materialismo, consumismo, divórcio, uniões ilegítimas, etc., são filhas e netas do retorno à terra daquele brado deicida de outrora: “Crucifica-O, crucifica-O!”
Se as famílias resolverem retomar o princípio de seu caráter sacral e, portanto, cristão, a face da terra será renovada, pois o lar deve ser, antes de tudo, um Tabernáculo do Senhor. Essa concepção religiosa nasce da própria essência e natureza do casamento. Nem sequer os pagãos fugiram dessa visualização, tanto que cultuavam dois deuses protetores do lar e lhes ofereciam sacrifícios.
Para os cristãos, a habitação familiar é um templo onde se encontram oração, pregação e sacrifício. A bênção dos alimentos, a ação de graças, a recitação coletiva do rosário e outras práticas de piedade, a Páscoa e o Natal em comum, etc., constituem a oração na Igreja doméstica.
São João Crisóstomo recomendava vivamente aos pais de família, em Constantinopla e Antioquia, a converterem suas casas em verdadeiros templos. Deviam repetir ali o que haviam aprendido na Igreja. Santo Agostinho ainda ia mais longe, atribuindo-lhes funções episcopais, enquanto responsáveis por transmitir a verdadeira doutrina dentro de casa.
Porém, a mais eficaz pregação é feita através do exemplo. Se o ambiente doméstico é um templo do Senhor, além de oração e pregação, ele exige sacrifício; deve-se nele oferecer uma vítima: “Rogo-vos, pois, irmãos, pela misericórdia de Deus, que ofereçais os vossos corpos como uma hóstia viva, santa, agradável a Deus” (Rm 12, 1).
Não se pode construir uma nova era com famílias desagregadas. Somente com lares bem constituídos e piedosos teremos uma sociedade robusta e sadia. Nenhuma outra época precisou tanto de famílias que dêem à sociedade bons cidadãos, autênticas pilastras e muralhas para a salvação e segurança do bom relacionamento humano. Esse nobre e indispensável objetivo só será alcançado pela restauração dessa célula-mater da civilização, segundo o espírito, a moral e a doutrina da Santa Igreja.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A transformação das mentalidades

 Com a acentuada e crescente decadência moral dos últimos tempos, paulatinamente vão se transformando as mentalidades, e passam a vigorar novas normas, insurgindo-se contra as eternas estabelecidas por Deus. Dando largas às suas paixões e vícios, numa progressiva via de deterioração dos princípios morais mais profundos, os homens contemporâneos chegam a dizer “em seus corações: o Senhor não faz bem, nem mal”; e acabam por eleger para si máximas relaxadas de vida: “Tudo é permitido... É proibido proibir”.
Ora, se nós abrirmos os Evangelhos, constataremos que não foi essa a conduta de Jesus e nem sequer por aí rumaram seus conselhos. Muito pelo contrário, o Divino Mestre afirmou: “Seja a vossa linguagem ‘sim, sim, não, não’.”
Jesus foi pedra de escândalo
Durante sua vida pública, Cristo dividiu os campos entre o bem e o mal, a verdade e o erro, o belo e o feio. Assim o mostrou, por exemplo, São Beda, o Venerável, ao afirmar: “Quando Jesus pregava e prodigalizava seus milagres, as multidões eram tomadas pelo temor e glorificavam o Deus de Israel; mas os fariseus e escribas acolhiam com palavras carregadas de ódio todos os ditos que procediam dos lábios do Senhor, como também as obras que realizava.”
Já ao ser o Menino Deus apresentado no Templo, Maria ouviu de Simeão estas palavras: “Eis que ele está posto para ruína e ressurreição de muitos em Israel, e para ser alvo de contradição.” O fato de Jesus ter sido pedra de escândalo é uma das causas de O terem odiado e de O tratarem como o Homem mais rejeitado da História. Esse escândalo deu-se, sinteticamente, por três razões.
1.       Por sua humildade e grandeza. A Pessoa Divina de Jesus une em si dois extremos opostos: a humildade e a grandeza.
Que o Messias nascesse em uma gruta, talvez ainda fosse aceitável para o orgulho humano, mas morrer na cruz... Era levar esta virtude até limites inconcebíveis.
De outro lado, Cristo, de dentro de sua inferior condição humana, demonstrou seu domínio sobre as enfermidades e a própria morte, sobre os mares, os ventos e as tempestades, causando espanto até aos seus mais íntimos.
É-nos fácil compreender a humildade, mas vê-la harmonicamente subsistir com a grandeza, num mesmo ser, choca nossa débil inteligência. Entretanto, Jesus nos chama à prática dessas virtudes opostas: por um lado, estarmos convictos de nossa contingência; por outro, vivermos na plena compenetração de sermos, pelo Batismo, filhos de Deus.
2.       Jesus, ademais, escandalizou por sua doutrina. Não só por expô-la com clareza e integridade totais, mas por ser Ele a própria Verdade em substância: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.” Não é difícil compreender o espanto de muitos ao ouvir o filho do carpinteiro dizer isto!
Como afirma Donoso Cortés, célebre escritor do século XIX, o homem aceita verdades, mas tem dificuldade em admitir a Verdade. A acirrada polêmica de Jesus com os fariseus tinha em seu cerne essa problemática: apontava o Divino Mestre para o grave dever moral de adequar a vida e os costumes à lei de Deus. Mas, sobretudo, convidava seus ouvintes a aceitá-Lo como fonte e substância de tudo aquilo que pregava.
Os fariseus eram hipócritas, condutores cegos, serpentes, raça de víboras, etc., e em seu orgulho estavam resolvidos a nunca aceitar a Verdade. Daí a perseguição até a morte, movida por eles contra o Verbo Encarnado.
3.       Por fim, Jesus escandalizou por sua santidade: “A condenação está nisto: A luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras são más. Porque todo aquele que faz o mal, aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de que não sejam reprovadas as suas obras.”
Ainda hoje — e assim será até o dia do Juízo — o pecador, em sua concupiscência, tem horror ao justo pois, à luz da vida deste, dá-se conta da maldade e feiúra do vício que abraçou, e não querendo abandoná-lo, procura destruir, ou denegrir o símbolo que o censura. A verdadeira santidade consiste em conhecer a Verdade, amá-la e praticá-la, ainda que isto possa levantar incompreensões e até rejeição. Disto Ele nos deu pungente exemplo no consummatum est, do alto da Cruz: de sinal de escárnio e de ignomínia, ela foi transformada pelo Redentor em trono de honra, poder e glória.


terça-feira, 29 de março de 2011

A inveja, “cárie dos ossos”


 A inconsistência, ilogicidade e malícia da inveja
 No que consiste esse vício? Na tristeza por causa do bem alheio. Tanquerey, no seu Compêndio de Teologia Ascética e Mística, salienta que o despeito causado pela inveja é acompanhado de uma constrição do coração, que diminui a sua atividade e produz um sentimento de angústia. O invejoso sente o bem de outra pessoa “como se fosse um golpe vibrado à sua superioridade”. Não é difícil perceber como esse vício nasce da soberba, a qual, como explica o famoso teólogo Frei Royo Marín, O.P., “é o apetite desordenado da excelência própria”. A inveja “é um dos pecados mais vis e repugnantes que se possa cometer”, faz questão de sublinhar o dominicano.
São Tomás destaca, na Catena aurea,  na parábola dos vinhateiros ,o fato de os trabalhadores da vinha não se queixarem por considerar-se defraudados na recompensa à qual tinham direito, mas porque os outros haviam recebido mais do que mereciam. Vemos por aí a insensatez do invejoso, a ponto de sofrer mais com o sucesso dos outros do que com suas perdas.
Da inveja nascem diversos pecados, como o ódio, a intriga, a murmuração, a difamação, a calúnia e o prazer nas adversidades do próximo. Ela está na raiz de muitas divisões e crimes, até mesmo no seio das famílias (basta lembrar a história de José do Egito). Diz a Escritura: “Por inveja do diabo, entrou a morte no mundo” (Sb 2, 24). Aqui está a raiz de todos os males de nossa terra de exílio. O primeiro homicídio da História teve esse vício como causa: “... e o Senhor olhou com agrado para Abel e para sua oblação, mas não olhou para Caim, nem para os seus dons. Caim ficou extremamente irritado com isso, e o seu semblante tornou-se abatido” (Gn 4, 4-5).
Na parábola dos vinhateiros, a inveja é o motivo da murmuração dos operários da primeira hora contra o dono da vinha. Este mesmo afirmará: “Ou me olhas com inveja por eu ser bom?” Pecado de conseqüências funestas, tornou amargurados muitos anjos, logo no primeiro dia da criação, que por essa razão foram precipitados do alto dos céus ao mais profundo dos infernos. Não suportaram a infinita superioridade de Deus e, quiçá, a divindade de Jesus e a predestinação de sua Mãe à maternidade divina.
Os Evangelhos transbordam ao narrarem a perfídia dos escribas e fariseus contra o Messias. Qual a causa desse ódio deicida? “Porque sabia que O tinham entregado por inveja” (Mt 27, 18).
Com propriedade afirma o livro dos Provérbios (14, 30): “Um coração tranqüilo é a vida do corpo, enquanto a inveja é a cárie dos ossos”.
Esse vício comporta graus. Quando tem por objeto bens terrenos (beleza, força, poder, riqueza, etc.), terá gravidade maior ou menor, dependendo das circunstâncias. Mas se disser respeito a dons e graças concedidas por Deus a um irmão, constituirá um dos mais graves pecados contra o Espírito Santo: a inveja da graça fraterna.
“A inveja do proveito espiritual do próximo é um dos pecados mais satânicos que se pode cometer, porque com ele não só se tem inveja e tristeza do bem do irmão, mas também da graça de Deus, que cresce no mundo”, comenta Frei Royo Marín.
Todas essas considerações devem gravar-se a fundo em nossos corações, fazendo-nos fugir desse vício como de uma peste mortal. Alegremo-nos com o bem de nossos irmãos, e louvemos a Deus por sua liberalidade e bondade. Quem agir assim notará, em pouco tempo, como o coração estará sossegado, a vida em paz, e a mente livre para navegar por horizontes mais elevados e belos. Mais ainda: tornar-se-á ele mesmo alvo do carinho e da predileção de nosso Pai Celeste.
 De passagem, parece-nos oportuno notar que essa regra se aplica não somente a cada católico, mas também às numerosas famílias espirituais existentes na Igreja. Entre elas deve reinar sempre e de modo crescente a atmosfera expressa pelo Apóstolo nestas palavras: “A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Cor 13, 4-7).
 Onde impera o amor a Deus, desaparece a inveja.


A recompensa demasiadamente grande
Aqui nesta terra estamos só de passagem. Nosso destino é a visão beatífica na eternidade: “In lumine tuo videbimus lumen” (Sl 35, 10) — “Na vossa luz veremos a luz”. Nossa inteligência participará do “lumen gloriae” (luz da glória) de Deus e será através desta que O veremos, face a face. Ele será o mesmo para todos e os cumulará de indizível felicidade, pois, como disse Deus: “Tua recompensa será demasiadamente grande” (Gn 15, 1). Porém, a condição essencial para todos lá chegarmos está fixada na verdadeira caridade, e jamais na inveja.

sexta-feira, 25 de março de 2011

É possível amar sem conhecer? E conhecer sem amar?

O que é superior, conhecer ou amar?
Parece que conhecer é superior, pois precede o amor. Com efeito, não é possível amar aquilo que não se conhece. Logo, a operação do intelecto, ou do conhecimento, é superior à operação da vontade, que diz respeito ao amor.

Se isso é inteiramente assim, então deveríamos dizer que é melhor conhecer a Deus do que amá-Lo. Alguém, conhecendo profundamente a Deus — em seus efeitos, evidentemente, não em sua essência —, poderia salvar-se quase sem amá-Lo... Entretanto, está escrito: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças”, e esse é o primeiro mandamento do Decálogo.
A questão, portanto, não é tão simples, e foi objeto de debates entre teólogos e filósofos escolásticos durante séculos.
São Tomás de Aquino a resolve de modo genial, podendo seu ensinamento ser resumido nesta frase: “A dileção supera o conhecimento em mover, mas o conhecimento precede o amor em atingir”. Fazemos vir até nossa inteligência o objeto de nosso conhecimento, quer dizer, apreendemos e nos apossamos intelectualmente daquele ser. Entretanto, quando amamos algo, nossa vontade voa até o amado, e nós é que somos apossados.
A importância maior do conhecimento ou do amor vai depender, então, daquilo que conhecemos ou amamos. Se tivermos diante de nós algo que nos é inferior, mais vale conhecer que amar. Pode ser nosso carro, por exemplo, ou o computador de casa. Ao conhecê-los, trazemo-los à nossa inteligência, adequando-os a nós mesmos. Eles, meros objetos materiais, ficam enobrecidos por sua apreensão pela inteligência humana.
Será normal que tomemos certo cuidado com esse carro ou computador, porque nos são úteis e têm seu preço. Mas se, por um movimento desregrado, nos apegamos a eles, ficamos-lhes proporcionados e, portanto, diminuídos em nossa dignidade de seres humanos.
Mas se aquilo que se oferece à nossa consideração é, por exemplo, Nosso Senhor Jesus Cristo, ou Nossa Senhora, ou a Cátedra de São Pedro, ao amálos, nossa alma voa até eles, e crescemos espiritualmente, sendo de algum modo assumidos.
Tão grande é a potência do amor que São Tomás chega a dizer que se um menino não-batizado e educado entre pagãos, ao chegar ao pleno uso da razão, amar eficazmente o que é superior a ele, mais do que a si próprio, ficará justificado.
O famoso dominicano tomista do século passado, Frei Réginald Garrigou Lagrange, comenta que só mesmo um São Tomás para se atrever a fazer uma afirmação tão ousada como essa. Entretanto, uma vez formulada, não é difícil perceber seu acerto.
Portanto, há seres e valores que são superiores a nós, aos quais devemos amar mais do que a nós mesmos. Esse amor será, sempre, em função de Deus, criador do universo e da ordem que há nele.
Eis, pois, o resultado de nossa inquirição: mais importante é amar que conhecer quando os entes nos são superiores; mais importante é conhecer que amar quando eles nos são inferiores.